A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) continua sendo um problema de saúde pública de grande relevância. Ela constitui a quinta maior causa de morte no Brasil1 e também a quinta maior causa de internação no Sistema Único de Saúde (SUS) entre pacientes com mais de 40 anos.1
A literatura recente tem destacado dois aspectos da doença. O primeiro é a precocidade com que podem se instalar as alterações fisiopatológicas que irão originar a DPOC. O conceito de que a doença se desenvolvia durante a idade adulta, em decorrência do tabagismo,2 foi substituído pela teoria do acúmulo de agressões pulmonares, que se inicia ainda no período intrauterino e se estende por toda a trajetória de vida do paciente.3-5 Fatores como crescimento intrauterino restrito, broncodisplasia neonatal e infecções na primeira infância já são determinantes para o desenvolvimento da DPOC.4 Estar atento a esses fatores é fundamental para o diagnóstico precoce.
O segundo aspecto é o caráter sistêmico da enfermidade. A DPOC consolidou-se como uma patologia que transcende a limitação ao fluxo aéreo. Por meio de atividade inflamatória sistêmica, hipoxemia, alterações no sistema nervoso autonômico e mudancas na mecânica da caixa torácica promovidas pela hiperinsuflação, a doença repercute em outros sistemas orgânicos, com destaque para o sistema cardiovascular.6 De fato, o risco associado a desfechos cardiovasculares em pacientes com DPOC se soma ao risco de complicações respiratórias, gerando o conceito de risco cardiopulmonar, que deve ser considerado no manejo desses pacientes.7
Para melhor adequação do tratamento dos pacientes com DPOC aos conhecimentos mais recentes sobre a doença, o Ministério da Saúde atualizou o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para o manejo da doença.8 A mudança mais significativa introduzida é a simplificação e o fortalecimento do início do tratamento com dois broncodilatadores nos pacientes muito sintomáticos ou exacerbadores.8 Alinhado à estratégia , que classifica os pacientes com grande carga de sintomas como grupo B e aqueles com histórico de exacerbações como grupo E, o PCDT reorganiza a tomada de decisão farmacológica ao priorizar a combinação de um beta-agonista de longa duração (LABA) com um antimuscarínico de longa duração (LAMA) para todos os pacientes do grupo B e para os pacientes não eosinofílicos do grupo E.9
O novo PCDT reconhece que a intensidade dos sintomas ou a ocorrência de exacerbações exige uma abordagem robusta e imediata. A terapia dupla não é mais vista apenas como um “passo seguinte”, mas como o alicerce para reduzir o aprisionamento aéreo e melhorar a mecânica respiratória desde o diagnóstico dos pacientes mais sintomáticos.8 Além disso, essa atualização tem um impacto direto no acesso ao tratamento pelo SUS. Ao incorporar de forma mais clara a dupla broncodilatação para perfis específicos de pacientes, o protocolo amplia a possibilidade de acesso gratuito a terapias inalatórias alinhadas às recomendações atuais, especialmente para indivíduos mais sintomáticos ou com maior risco de exacerbações. Na prática, isso reduz a distância entre a recomendação científica e a disponibilidade do tratamento no sistema público, favorecendo uma condução mais equitativa e baseada em critérios clínicos objetivos.
Um paciente é considerado muito sintomático quando apresenta pelo menos 10 pontos no COPD Assessment Test (CAT) ou 2 pontos na escala de dispneia do modified Medical Research Council (mMRC).9 Se esse paciente não tem histórico de exacerbações, é classificado como GOLD B e pode receber a prescrição de dupla broncodilatação já na primeira consulta.9 Comparada à terapia com um único broncodilator, a dupla broncodilatação promove maior ganho de função pulmonar, aferida pelo menor risco de exacerbações moderadas ou graves e menor necessidade de escalonamento para tripla terapia.10
Pacientes com histórico de exacerbações moderadas ou graves no último ano são classificados como GOLD E.8 Neste grupo, a dupla broncodilatação com LAMA/LABA também é a terapia-padrão, embora o acréscimo de corticoide inalado possa ser considerado para os pacientes com inflamação eosinofílica (pacientes com mais de 300 eosinófilos).9,11 Vale destacar que existe sobreuso de ICS em pacientes que não se beneficiariam da terapia, como aqueles com baixo risco de exacerbação ou eosinófilos abaixo de 300.12 Esse uso inapropriado aumenta os custos e o risco de pneumonia e efeitos colaterais.13
Alguns pacientes apresentam dificuldades técnicas para aspiração de medicamentos na forma de pó seco, por não conseguirem gerar a pressão inspiratória mínima necessária para aerossolizar o pó.14 Em consonância com o GOLD, o PCDT recomenda a terapia broncodilatadora via névoa suave para esses pacientes, pois a escolha do dispositivo deve considerar não apenas a medicação indicada, mas também a capacidade real do paciente de utilizar corretamente o inalador.8,9 A associação de via névoa suave é indicada nesses casos para indivíduos com obstrução GOLD 3 ou 4 menor que 50%), perfil exacerbador e menos de 300 eosinófilos.8,9
Pela primeira vez, o PCDT destaca a importância do risco cardiopulmonar.7,8 A DPOC e a doença cardiovascular compartilham vias inflamatórias e fatores de risco comuns, como o tabagismo e o sedentarismo.7 A hiperinsuflação pulmonar impacta negativamente a função cardíaca na DPOC. O tratamento com tiotrópio/olodaterol demonstrou melhora significativa do enchimento ventricular esquerdo após 14 dias de uso, reforçando a relação entre otimização da função pulmonar e repercussões cardiovasculares favoráveis.15
O PCDT 2025 marca o início de uma era de maior precisão no tratamento da DPOC no Brasil, mas seu impacto depende da aplicação criteriosa no consultório. Para o médico, isso significa identificar corretamente o perfil do paciente, avaliar sintomas, histórico de exacerbações, risco cardiopulmonar, eosinofilia e capacidade de uso do dispositivo inalatório,9 além de quais terapias estão disponíveis no SUS conforme os critérios do protocolo. Para o paciente, a principal mudança está na possibilidade de acesso gratuito a tratamentos mais alinhados às recomendações atuais, com potencial de reduzir sintomas, melhorar a funcionalidade, prevenir exacerbações e diminuir barreiras financeiras ao cuidado contínuo.
Revisado por: Gabriel Quintino (Editor Médico)
Autoria
Renato Azambuja
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