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Pneumologia17 junho 2026

Balão angioplastia na HPTEC: seleção, técnica e segurança

Diretriz detalha seleção, técnica, segurança e complicações do balão angioplastia na HPTEC inoperável ou residual.

Relevância clínica 

A hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC) é uma causa potencialmente tratável de hipertensão pulmonar, mas frequentemente subdiagnosticada em pacientes com dispneia persistente após embolia pulmonar ou limitação funcional sem explicação clara. A doença decorre de obstrução fibrotrómbótica organizada nas artérias pulmonares, associada a vasculopatia de pequenos vasos, aumento progressivo da resistência vascular pulmonar e falência ventricular direita. Nesse cenário, o balão angioplastia tornou-se componente central do tratamento multimodal, especialmente quando a tromboendarterectomia pulmonar não é possível. 

Objetivo e escopo da diretriz 

O documento da Balloon Pulmonary Angioplasty-Chronic Thromboembolic Pulmonary Hypertension Alliance (BPA-CTEPH Alliance) é uma revisão “state-of-the-art” voltada à prática, com foco nos Estados Unidos. Ele descreve quando considerar o balão angioplastia, como selecionar pacientes, quais exames usar antes do procedimento, como manejar anticoagulação e terapia-alvo para hipertensão pulmonar, além de detalhar técnica, complicações, treinamento e requisitos mínimos para centros que desejam oferecer o procedimento. O texto não substitui a avaliação individual por equipe especializada. 

Metodologia e força das recomendações 

A diretriz não usa sistema formal de graduação de evidência, como GRADE. As recomendações derivam de consenso de especialistas, registros multicêntricos, séries observacionais, estudos fisiológicos, ensaios selecionados e experiência acumulada em centros de referência. Isso é importante porque muitos pontos práticos — como estratégia de anticoagulação periprocedimento, número ideal de sessões e critérios finais de sucesso — ainda não foram definidos por ensaios randomizados robustos. Portanto, o documento é clinicamente útil, mas parte das orientações depende de expertise local e curva de aprendizado. 

Seleção de pacientes 

A mensagem central é que todo paciente com HPTEC deve ser avaliado por equipe multidisciplinar com especialistas em hipertensão pulmonar, imagem, tromboendarterectomia pulmonar, intervenção por balão angioplastia e tratamento clínico. A tromboendarterectomia continua sendo o tratamento de escolha quando a doença é proximal, cirurgicamente acessível e o risco operatório é aceitável. O balão angioplastia deve ser considerado em doença distal segmentar ou subsegmentar, risco cirúrgico proibitivo, comorbidades relevantes, “tórax hostil”, doença residual após cirurgia ou recusa informada da cirurgia. 

Avaliação diagnóstica antes do procedimento 

A cintilografia de ventilação/perfusão permanece o exame inicial preferido, pois um resultado normal praticamente exclui HPTEC. A angiotomografia de artérias pulmonares complementa a avaliação anatômica, mas sua sensibilidade depende muito da experiência do centro, especialmente para lesões distais. O cateterismo cardíaco direito é recomendado para todos os pacientes, pois quantifica pressão pulmonar, resistência vascular pulmonar e risco hemodinâmico. Testes de exercício cardiopulmonar podem ajudar quando há sintomas com hipertensão pulmonar ausente ou discreta em repouso. 

Papel das imagens e anatomia das lesões 

A diretriz valoriza a caracterização anatômica fina. Lesões em anel, webs simples ou complexas e estenoses subtotais costumam ser mais favoráveis ao balão angioplastia. Oclusões totais, lesões tortuosas distais e obstruções ostiais complexas têm maior risco e menor taxa de sucesso. Angiografia seletiva, tomografia de dupla energia, SPECT/CT e cone-beam CT podem auxiliar no planejamento, sobretudo para correlacionar defeito de perfusão, anatomia vascular e alvo de intervenção. A documentação angiográfica de cada segmento tratado é considerada essencial. 

Manejo medicamentoso 

A anticoagulação vitalícia é tratada como pilar do cuidado em HPTEC, salvo contraindicação muito forte. A diretriz reconhece uso crescente de anticoagulantes orais diretos, mas destaca ausência de estudos randomizados comparativos nessa população e sinais observacionais de possível maior recorrência tromboembólica após tromboendarterectomia em usuários desses fármacos. No periprocedimento, anticoagulantes diretos geralmente são suspensos 24 a 48 horas antes; varfarina pode ser suspensa por alguns dias, com ponte individualizada. A retomada depende de sangramento pulmonar ou no acesso. 

Terapia-alvo para hipertensão pulmonar 

O riociguate é destacado como a única terapia medicamentosa aprovada nos Estados Unidos para HPTEC inoperável ou hipertensão pulmonar persistente após cirurgia. O estudo RACE comparou riociguate e balão angioplastia em HPTEC inoperável: o balão reduziu mais a resistência vascular pulmonar em 26 semanas, mas a estratégia com riociguate antes do procedimento pareceu associar-se a menos complicações. Por isso, o documento incorpora a recomendação de iniciar riociguate antes do balão angioplastia quando a pressão média da artéria pulmonar é >40 mmHg ou a resistência vascular pulmonar >4 WU. 

Técnica do balão angioplastia 

O procedimento é feito por acesso venoso, geralmente femoral ou jugular, com sedação consciente para permitir cooperação e reconhecimento precoce de sintomas. O uso de heparina intravenosa durante o procedimento é habitual, com alvo de tempo de coagulação ativado em torno de 200 a 250 segundos, embora haja variação entre operadores. A angioplastia é realizada com fios-guia e balões geralmente pequenos, de progressão gradual. Em pacientes com resistência vascular pulmonar muito alta, recomenda-se tratar menos segmentos por sessão e iniciar com balões subdimensionados. 

Estratégia por sessões 

O balão angioplastia raramente é um procedimento único. A média descrita fica em torno de quatro a sete sessões por paciente, podendo ser maior em indivíduos com resistência vascular pulmonar muito elevada. A decisão de interromper uma sessão pode ocorrer por limite de contraste, radiação, número de segmentos tratados, instabilidade, intolerância do paciente ou complicação vascular. Ainda não existe consenso definitivo sobre o ponto ideal de término do tratamento: pode-se buscar tratar todos os alvos, normalizar hemodinâmica ou priorizar melhora funcional centrada no paciente. 

Complicações principais 

As complicações são divididas em torácicas e não torácicas. As principais são hemoptise, lesão vascular e lesão pulmonar de reperfusão. A hemoptise costuma decorrer de perfuração por fio-guia ou lesão vascular durante a dilatação. O manejo pode incluir interrupção do procedimento, oclusão temporária com balão, reversão da heparina com protamina, embolização com coils ou gelatina hemostática e suporte anestésico em casos graves. A lesão de reperfusão pode surgir horas após o procedimento, exigindo observação, oxigênio, diuréticos e, raramente, ventilação mecânica ou ECMO. 

Resultados esperados 

A evidência contemporânea mostra melhora consistente de parâmetros hemodinâmicos, classe funcional, distância no teste de caminhada de seis minutos, eficiência ventilatória e qualidade de vida. Estudos europeus e norte-americanos relatam reduções de resistência vascular pulmonar em torno de 42% a 45%, enquanto registros japoneses descrevem reduções mais expressivas, possivelmente por maior experiência, diferenças de técnica e perfil dos pacientes. O Registro Internacional de Balão Angioplastia demonstrou redução de 57% da resistência vascular pulmonar após a última sessão em pacientes com dados hemodinâmicos disponíveis. 

Mudanças em relação à prática anterior 

A principal mudança é a consolidação do balão angioplastia como parte do cuidado multimodal da HPTEC, e não mais como terapia experimental ou de exceção. A experiência inicial era limitada por altas taxas de lesão pulmonar de reperfusão, mas refinamentos técnicos, melhor seleção de lesões, uso de balões menores, tratamento em múltiplas sessões, integração com terapia medicamentosa e maior experiência dos operadores reduziram substancialmente a morbidade. O procedimento passou a ser recomendado dentro de centros especializados, com equipe e infraestrutura adequadas. 

Requisitos de centro e treinamento 

A diretriz é enfática: balão angioplastia deve ser realizado em centros com programa multidisciplinar de HPTEC. O operador deve ter formação intervencionista, competência em cateterismo direito, angiografia pulmonar e intervenções coronárias ou vasculares. O centro deve dispor de laboratório adequado, proteção radiológica, materiais para tratar sangramento, anestesia de retaguarda, terapia intensiva, cirurgia cardiotorácica e possibilidade de suporte circulatório extracorpóreo. Casos complexos — hipertensão pulmonar grave, pós-tromboendarterectomia, hemoglobinopatias ou trombofilias — devem ficar com operadores experientes. 

Limitações e lacunas 

As principais limitações são a dependência de estudos observacionais, registros e experiência de centros de alto volume. Faltam ensaios randomizados, especialmente nos Estados Unidos, para definir melhor desfechos de longo prazo, patência vascular após o procedimento, comparação entre estratégias combinadas, momento ideal de riociguate, critérios de sucesso e papel do balão angioplastia em doença tromboembólica crônica sem hipertensão pulmonar em repouso. Também há viés de seleção: pacientes tratados em centros especialistas podem não representar a prática geral. 

Impacto prático 

Para o médico clínico, pneumologista, cardiologista ou emergencista, o ponto mais importante é reconhecer a possibilidade de HPTEC. Dispneia persistente, intolerância ao esforço, síncope, sinais de disfunção ventricular direita ou hipoxemia após embolia pulmonar devem motivar investigação. A cintilografia V/Q continua sendo exame-chave de rastreamento. Quando há suspeita, o encaminhamento precoce a centro especializado evita que o paciente seja rotulado apenas como “pós-TEP”, “DPOC”, “descondicionamento” ou “ansiedade”, atrasando terapias potencialmente modificadoras de prognóstico. 

Mensagem final para a prática 

No ambulatório, pense em HPTEC diante de dispneia persistente após embolia pulmonar e peça V/Q. Na enfermaria, não encerre a investigação de hipertensão pulmonar sem avaliar doença tromboembólica crônica. No plantão, reconheça que piora respiratória ou hemoptise após balão angioplastia pode representar lesão vascular ou reperfusão e exige suporte imediato. O balão angioplastia é uma ferramenta efetiva, mas deve ser indicada, executada e acompanhada em rede especializada. 

Autoria

Foto de Bruna Provenzano

Bruna Provenzano

Médica formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Especializada em Clínica Médica com residência no Hospital Universitário Pedro Ernesto pela UERJ ⦁ Especializada em Terapia Intensiva pelo Instituto D'Or de Ensino e Pesquisa, com título de especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Residente de Pneumologia no Hospital Universitário Pedro Ernesto pela UERJ.

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