Indivíduos imunossuprimidos apresentam alta carga de doença pelo vírus sincicial respiratório (VSR), com taxa de hospitalização em torno de 10%. As duas vacinas de subunidade proteica baseadas na proteína F de pré-fusão (préF), RSVpreF (Arexvy/RSV-AS01E, contém adjuvantes) e RSVpreF (Abrysvo/RSV-A/B, sem adjuvantes), foram licenciadas e recomendadas para uso em adultos no ano de 2023. No entanto, essas vacinas não foram testadas na população imunocomprometida e os dados pós-licenciamento sugerem proteção atenuada, comparando-se com imunocompetentes. O estudo publicado por Nauroz et al. no Open Forum Infectious Diseases avaliou pela primeira vez a durabilidade da resposta vacinal em pacientes imunossuprimidos.

Quem participou do estudo sobre resposta vacinal em imunossuprimidos?
Coorte observacional prospectiva nacional de transplantados de órgãos sólidos (TOS) e pacientes com doenças autoimunes em uso de imunossupressores, vacinados entre outubro de 2023 e julho de 2024. Amostras foram coletadas nos meses 1, 3 e 6 após a imunização, sendo excluídos os pacientes em uso de imunoglobulina ou hemoderivados (plasma). A IgG anti-preF foi mensurada por meio de ensaio eletroquimioluminescente e a capacidade neutralizante (diluição na qual 50% do vírus é neutralizado ou título de neutralização de 50%), por meio de redução de placa. A soroconversão foi definida como o aumento ≥ 4 vezes na IgG e neutralização como NT50 ≥ 2576 (referência pré-vacinal).
A IgG anti-preF permanece estável durante o seguimento
47 participantes foram incluídos no estudo, sendo 27 do grupo RSV-AS01E ,15 do grupo RSV-A/B e 5 indeterminados. 83% eram TOS; a mediana de idade observada foi de 66 anos e 40% dos indivíduos estavam em uso de 3 ou mais imunossupressores. A IgG anti-preF subiu de 108.501 para 605.391 AU/mL em 1 mês (com p < .001) e manteve-se estável nos meses 3 e 6, sem diferença estatisticamente significativa entre o pico e os 6 meses. O NT50 mediano subiu de 444 para 2978 em 1 mês e 1566 aos 6 meses.
A resposta foi heterogênea: a mediana de aumento foi de 5 vezes, sendo mais de 10 em adultos saudáveis e mais de 40% nunca atingiu a neutralização acima do limiar de referência. Os imunizados com a vacina adjuvante tiveram IgG mais alta em todos os tempos analisados e taxa de soroconversão maior aos 3 (64% vs. 15%) e 6 meses (62% vs. 23%). Os usuários de Micofenolato mofetil apresentaram níveis mais baixos de anticorpos, principalmente naqueles que utilizam altas doses (> 1000 mg/dia) e o benefício do uso do adjuvante foi atenuado nos pacientes em uso dessa medicação.
Micofenolato mofetil se associa a menor resposta humoral
A resposta de anticorpos às vacinas proteicas contra o VSR parece durar pelo menos 6 meses em pacientes imunossuprimidos, mas não é uniforme e varia de acordo como regime imunossupressor em uso. Ademais, a resposta é reduzida nessa população e muitos não atingem títulos considerados protetores. A vacina com adjuvante oferece vantagem imunogênica, assim como ocorre com outros imunizantes desse subtipo. O estudo apresenta limitações por ser pequeno, observacional, sem a presença de grupo controle (não imunossuprimidos) e a alta proporção de transplantados renais (o que pode levar à discussão sobre níveis de imunossupressão da população estudada).
Por fim, a estratégia de proteção deve ser individualizada, com esquema de duas doses, imunoprofilaxia passiva e doses de reforço, mas ainda não há recomendação formal preferencial. Estudos em andamento estão investigando essas abordagens alternativas.
Autoria

Camila Rangel
Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.
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