A atualização de 2026 do PCDT de hepatite C reorganiza rastreio, diagnóstico, estadiamento e tratamento no SUS, com participação ampliada da Atenção Primária à Saúde. A infecção pelo HCV costuma ser silenciosa, com replicação viral nos hepatócitos, provocando inflamação e necrose celular. A infecção pode tornar-se crônica, quando há persistência por mais de seis meses, e evoluir para fibrose, cirrose e carcinoma hepatocelular.
O novo PCDT busca combinar diagnóstico mais amplo e tratamento oral pangenotípico, apoiando a meta de eliminação da doença como problema de saúde pública. Sua elaboração seguiu as Diretrizes Metodológicas do Ministério da Saúde e a atualização revoga a portaria de 2018.

O rastreio de hepatite C alcança todos os adultos
O protocolo recomenda testar todas as pessoas com 18 anos ou mais pelo menos uma vez na vida. Para indivíduos com 40 anos ou mais, orienta intensificar a testagem oportuna e a busca ativa. Gestantes devem ser testadas em cada gestação, enquanto profissionais expostos a material biológico devem ser avaliados nas situações de acidente ou exposição. Em pessoas que com infecção prévia por HCV, curados ou com eliminação espontânea, o teste de rastreio recomendado é a carga viral HCV-RNA.
Consideram-se como situações de vulnerabilidade aumentada as seguintes condições, atividades e exposições, nas quais a testagem deve ser estimulada e ofertada de forma oportuna:
- Pessoas que usam drogas ilícitas injetáveis, pipadas (por exemplo, crack) ou inaladas;
- Homens que fazem sexo com homens;
- Pessoas que praticam sexo químico (chemsex), isto é, o uso intencional de drogas não-prescritas para a realização de prática sexual como forma de facilitar ou intensificar a experiência sexual;
- Pessoas em hemodiálise;
- Crianças nascidas de mães com HCV;
- Pessoas privadas de liberdade;
- Pessoas que fizeram transfusão de sangue ou hemoderivados antes de 1992;
- Pessoas que realizaram procedimentos estéticos, como tatuagens, piercings, entre outros;
- Pessoas com outras hepatopatias crônicas;
- Pessoas com diabetes mellitus ou outras condições crônicas;
- Pessoas com evidências clínicas que podem corresponder a manifestações extra-hepáticas de infecção por HCV, como, mas não somente, úlcera corneana, tireoidopatias, fibrose pulmonar, síndrome de Sjogren, doença renal crônica, vasculites sistêmicas, artralgias, mialgias, poliartrite inflamatória, trombocitopenia autoimune e disfunção neurocognitiva.
Pessoas que mantêm vulnerabilidade à infecção e apresentam anti-HCV não reagente devem realizar testagem anual. Para usuários de PrEP para HIV, o anti-HCV é indicado a cada quatro meses. Pessoas vivendo com HIV, pessoas trans, trabalhadores do sexo, pessoas em situação de rua, usuários de álcool e outras drogas, pessoas em hemodiálise e privadas de liberdade estão entre os grupos para os quais a oferta de testagem deve ser reforçada.
Destaca-se que pessoas com qualquer fator de risco ou que manifestem desejo de serem testadas devem realizar o exame, independentemente da idade.
Como o HCV-RNA confirma infecção ativa?
O anti-HCV permanece como exame inicial de rastreio, por teste rápido ou imunoensaio laboratorial. Um resultado reagente requer investigação de infecção ativa com HCV-RNA ou antígeno do core do HCV. Anti-HCV reagente associado a HCV-RNA não detectável corresponde a contato prévio ou infecção passada.
Na suspeita de hepatite C aguda, recomenda-se privilegiar o teste molecular, pois o RNA viral pode ser identificado antes da soroconversão. Confirmada a infecção, o tratamento está indicado tanto na forma aguda quanto na crônica, sem necessidade de aguardar cronificação.
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Rastreio em crianças expostas ao HCV
Crianças nascidas de mães infectadas por HCV são consideradas como expostas, independentemente de apresentarem sintomas ou alterações laboratoriais no período neonatal. Todas as crianças expostas devem realizar teste molecular entre 3 e 6 meses de idade e devem ser acompanhadas até os 18 meses, quando deve-se solicitar um teste anti-HCV (laboratorial ou teste rápido). Crianças com carga viral detectável entre 3 e 6 meses devem ser notificadas como caso de HCV e ter uma nova carga viral HCV-RNA coletada aos 18 meses, além do teste de anti-HCV. Se, aos 18 meses, o anti-HCV for não reagente, a infecção pelo HCV é descartada. Caso o resultado seja reagente, a confirmação de infecção é feita por meio do resultado de carga viral.
Calcule o escore APRI para estadiar a hepatopatia
O estadiamento parte do APRI. Valores inferiores a 1 indicam baixa probabilidade de cirrose; resultados iguais ou superiores a 1 requerem avaliação não invasiva adicional, que pode incluir ultrassonografia ou elastografia. O FIB-4 também pode contribuir para caracterizar fibrose avançada.
A tabela a seguir mostra a caracterização da fibrose hepática conforme valores de APRI e FIB-4:
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APRI – Avaliação de Cirrose Hepática | |||
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Resultado | < 1,0 | 1,0 – 1,49 |
≥ 2,0 |
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Interpretação | Baixa probabilidade de cirrose (F4) | Não determina com acurácia o estádio de fibrose hepática |
Alta probabilidade de cirrose |
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FIB-4 – Avaliação de Fibrose Hepática Avançada ou Cirrose | |||
| Resultado | < 1,45 | 1,45 – 3,24 |
≥ 3,25 |
| Interpretação |
Baixa probabilidade de fibrose F2, F3 ou F4 |
Não determina com acurácia o estádio de fibrose hepática |
Alta probabilidade de F3 ou F4 |
Pacientes com APRI abaixo de 1, sem cirrose e sem as comorbidades graves especificadas pelo protocolo podem ser tratados e acompanhados na APS. Coinfecções HCV-HIV ou HCV-HBV, gestação, menores de 18 anos, insuficiência renal grave, transplante, neoplasia, uso de quimioterapia, anticonvulsivantes de primeira geração ou amiodarona, manifestações extra-hepáticas graves e falha prévia com antivirais de ação direta estão entre as situações que justificam atenção especializada.
Todos os esquemas de DAA são seguros e eficazes em pessoas com doença renal crônica, incluindo as que estão em hemodiálise, sem necessidade de ajuste de doses ou alterações nos esquemas recomendados para pacientes sem nefropatia.
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Cirrose descompensada direciona terapia prolongada
A genotipagem não é necessária para tratamento inicial ou retratamento com antivirais de ação direta (DAA). Antes do início da terapia, todos os medicamentos prescritos ou não prescritos, de uso contínuo ou não, devem ser revisados. Rifampicina, Rifabutina, Rifapentina, Carbamazepina, Oxcarbazepina, Fenitoína e Fenobarbital não devem ser usados concomitantemente aos DAA disponíveis. Todas as pessoas com diagnóstico de HCV devem ser rastreadas para coinfecções, incluindo HBV, HAV, HIV e sífilis. Indivíduos suscetíveis para hepatite A e/ou B devem ser vacinados, conforme os esquemas vacinais preconizados.
Em pacientes a partir de 12 anos ou com pelo menos 30 kg, APRI abaixo de 1 e ausência de cirrose, a primeira linha de tratamento é a combinação de Sofosbuvir + daclatasvir por 12 semanas. Com APRI igual ou superior a 1 ou cirrose compensada Child A, recomenda-se Sofosbuvir/velpatasvir por 12 semanas. Na cirrose descompensada Child B ou C, o mesmo esquema é mantido por 24 semanas. Crianças a partir de 3 anos e com pelo menos 17 kg também podem receber tratamento, com apresentação granulada de Sofosbuvir/velpatasvir conforme a faixa prevista no protocolo. A resposta virológica sustentada (RVS) é verificada pelo HCV-RNA a partir de 12 semanas após o término da terapia. Resultado indetectável caracteriza cura, e os medicamentos disponíveis no SUS alcançam RVS em mais de 95% dos pacientes.
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Estadiamento Hepático | Combinação de DAA |
Duração |
| APRI < 1 e sem cirrose | Sofosbuvir + daclastavir | 12 semanas |
| APRI ≥ 1 ou cirrose compensada (Child A) | Sofosbuvir/velpatasvir | 12 semanas |
| Cirrose descompensada (Child B ou C) | Sofosbuvir/velpatasvir | 24 semanas |
Após falha prévia a DAA, pacientes sem cirrose ou com Child A recebem Sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir por 12 semanas. Na cirrose descompensada, recomenda-se Sofosbuvir/velpatasvir por 24 semanas e devem ser evitados inibidores de protease. Pacientes sem RVS após retratamento com Sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir ou Sofosbuvir + glecaprevir/pibrentasvir podem ter o tempo de tratamento estendido para 24 semanas.
Se houver coinfecção HIV-HCV, revise interações
Na coinfecção HIV HCV, o tratamento está indicado para todas as pessoas com infecção ativa pelo HCV, após avaliação das possíveis interações com a terapia antirretroviral (TARV). O PCDT também orienta investigar HBV com HBsAg e anti-HBc e manejar o risco de reativação durante o uso dos DAA.
Pacientes que estejam em uso de TARV que contraindique o uso de DAA devem ser avaliados em relação à possibilidade de troca da TARV para um esquema baseado em Dolutegravir, que apresenta perfil mais favorável de interações medicamentosas.
Os esquemas combinados de DAA não devem ser usados de forma concomitante a inibidores de transcriptase reversa não-análogos de nucleosídeo, como Efavirenz, Nevirapina ou Etravirina. Glecaprevir e Voxilaprevir não devem ser utilizados com Atazanavir e nem Darunavir e deve-se evitar a associação de Velpatasvir e a formulação Tenofovir desoproxila (TDF), pela potencialização do efeito nefrotóxico do TDF. A formulação Tenofovir alafenamida (TAF) é segura para uso em associação com os DAA.
Nos casos em que houve troca de TARV para viabilizar o tratamento de HCV, se houver necessidade de retorno para o esquema original, deve-se aguardar pelo menos duas semanas após o término da administração dos DAA, uma vez que alguns antivirais de ação direta apresentam meia-vida prolongada.
Acompanhamento após cura
Pacientes sem fibrose avançada (F0 a F2, APRI < 1 ou FIB-4 < 1,45), sem fatores de risco relevantes para reinfecção do HCV e sem fatores de risco concomitantes para agravamento de hepatopatia podem receber alta após cura comprovada por RSV. Esses pacientes devem receber aconselhamento quanto ao risco de reinfecção por HCV e à necessidade de evitar exposições, comportamentos ou condições clínicas associadas a potencial dano hepático. Em caso de reinfecção, devem ser tratados com esquema inicial. Pessoas com estadiamento F3 ou F4 de fibrose ou equivalente devem manter acompanhamento devido ao risco de desenvolvimento de carcinoma hepatocelular, com avaliações semestrais por tempo indefinido.
Condutas práticas para o manejo do HCV
Na prática, o PCDT de hepatite C organiza uma sequência objetiva para o médico: confirmar viremia, estadiar a hepatopatia, reconhecer critérios de encaminhamento, revisar interações, selecionar o esquema e documentar a RVS. A oferta concreta das alternativas terapêuticas no SUS será atualizada por Nota Técnica específica segundo o critério de custo-minimização. A prevenção de reinfecção e a vacinação contra hepatites A e B em pessoas suscetíveis completam a linha de cuidado.
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Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Isabel Cristina Melo Mendes
Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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