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Infectologia27 fevereiro 2025

O uso de inibidores de integrase e progressão de aterosclerose subclínica  

Estudo buscou avaliar a associação do inibidores de integrasse com a progressão da aterosclerose subclínica em pessoas vivendo com HIV

Com o avanço das opções e da disponibilidade da terapia antirretroviral (TARV) de alta potência, a história natural da infecção pelo HIV mudou e pessoas vivendo com HIV (PVHIV) agora apresentam expectativa de vida comparável à da população geral. Entretanto, outros problemas passaram a ganhar mais importância o cuidado de PVHIV, como as doenças cardiovasculares, que atualmente são umas das principais causas de mortalidade nessa população. O risco de infarto do miocárdio, por exemplo, é duas vezes maior em PVHIV. Algumas classes de antirretrovirais, como os inibidores de protease (IP), estão associadas a esse maior risco. 

Os inibidores de integrasse (INI) são as principais medicações utilizadas atualmente nos esquemas de TARV e, em comparação com IPs, parecem ter menor impacto nos níveis de lipídios e de biomarcadores cardiovasculares. Contudo, alguns estudos têm sugerido um risco aumentado de desfechos metabólicos desfavoráveis, como ganho de peso, aumento na pressão arterial e maior risco de desenvolvimento de hipertensão e diabetes mellitus. Além disso, estudos mais recentes sugerem maior incidência de eventos cardiovasculares com o uso de INI. 

Baseado nessas evidências, um estudo prospectivo publicado na Journal of Antimicrobial Chemotheraphy procurou avaliar a contribuição dos INI para a progressão de aterosclerose subclínica mensurada pela espessura íntima/média das carótidas. 

Métodos 

Trata-se de um estudo prospectivo, conduzido em um hospital universitário na Espanha, com indivíduos adultos com infecção pelo HIV e que estavam em tratamento com esquemas baseados em inibidores de transcriptase reversa não nucleotídeos (ITRNN) ou INI por pelo menos seis meses e que apresentavam carga viral indetectável. Indivíduos com doença cardiovascular conhecida, em tratamento com IP, gestantes e mulheres que engravidaram durante o estudo foram excluídos. 

Os participantes foram incluídos de 2017 a 2019, sendo acompanhados por 2 anos, até janeiro de 2022. As visitas de seguimento ocorreram na entrada do estudo e nas semanas 48 e 96. Em cada visita, além da realização de exame físico, foram avaliadas medidas antropométricas como PA, peso, altura e IMC e foram coletadas amostras de sangue para avaliação de variáveis bioquímicas, metabólicas e virológicas. A espessura das carótidas também foi avaliada em cada uma dessas visitas, por meio de USG. 

Resultados: inibidores de integrase e progressão de aterosclerose subclínica  

Dos 190 participantes recrutados, todos completaram o seguimento com 48 semanas e 173, o de 96 semanas. A mediana de idade da coorte foi de 48 anos, 81,1% eram homens, 59% tinham pelo menos um fator de risco cardiovascular clássico, sendo 50,5% fumantes, 11,7% com dislipidemia, 10,0% com hipertensão e 2,6% com diabetes. As medianas do risco cardiovascular de acordo com os escores de 10 anos de Framingham e ASCVD foram de 6,3% e 2,6%. A mediana de IMC foi de 24,7 kg/m². 

A maioria dos participantes (90,5%) estava com o mesmo esquema de TARV há pelo menos um ano e 7,9% tinham alterado o esquema nos seis meses anteriores. Em relação às classes, 67,4% estavam em uso de ITRNN e 56,3%, de um INI. Destes, 23,7% usavam uma combinação de ITRNN e inibidores de integrasse (INI). 

Na entrada do estudo, o grupo de indivíduos que usava ITRNN apresentou, em comparação com os que usavam INI, menores níveis de colesterol LDL e colesterol total, maiores níveis de D-dímero e menor tempo de supressão viral. A prevalência de fatores de risco cardiovasculares tradicionais foi semelhante entre os grupos e não houve diferença entre os regimes de tratamento em relação a PA ou peso. Os participantes em uso de INI apresentavam menores valores nos escores de Framingham e ASCVD, mas essa diferença desapareceu quando os participantes que estavam em uso de INI e ITRNN foram excluídos. 

A mediana da alteração na espessura da carótida em 2 anos no estudo foi de 0,029mm. Oitenta e sete (45,8%) dos participantes apresentaram um aumento ≥ 10%, com 54 (28,4%) desenvolvendo uma nova placa de ateroma. Na análise não ajustada, não houve diferença entre os participantes que usavam INI e os que usavam ITRNN na progressão da espessura de carótidas. 

Considerando as características de entrada no estudo, na análise univariada, idade, pressão sistólica e diastólica, IMC, escore de Framingham e ASCVD, HDL, LDL, triglicerídeos, D-dímero e o biomarcador sCD14 foram associados com progressão de espessura de carótida. Em relação a fatores relacionados à infecção pelo HIV, os participantes que apresentaram progressão tinham menores valores de linfócitos T-CD4.  

Não houve diferença significativa entre os grupos em relação à história de exposição prévia a abacavir ou IP. A análise multivariada ajustada mostrou que idade, pressão sistólica, HDL, LDL, porcentagem de CD4, D-dímero e sCD14 foram fatores independentes associados à progressão de espessura de carótida. A exposição a INI mostrou uma associação não-significativa, mas com tendência à significância. Contudo, essa tendência desapareceu quando os indivíduos em uso de INI e ITRNN foram excluídos. 

Mensagens práticas 

Nesse estudo, a exposição a inibidores de integrasse (INI) não esteve associada ao aumento de progressão de aterosclerose subclínica em comparação com ITRNN.

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