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Infectologia1 setembro 2026

Febre do Nilo Ocidental: o que precisamos saber?

Entenda os casos registrados no Brasil, formas de transmissão, principais sintomas, diagnóstico e medidas de prevenção

Recentemente, foi confirmada a primeira morte por Febre do Nilo Ocidental no Brasil. Esse fato, junto com o potencial epidêmico da doença, despertou a atenção das autoridades sanitárias e dos profissionais de saúde do país.

Confira os principais aspectos sobre essa doença.

Febre do Nilo Ocidental: o que precisamos saber?

Etiologia e epidemiologia

A Febre do Nilo Ocidental é uma arbovirose transmitida por mosquitos do gênero Culex, os pernilongos comuns. Na natureza, o ciclo de transmissão é mantido por meio de aves, mas outros hospedeiros podem eventualmente ser contaminados, como equinos e primatas não-humanos. Seres humanos e equídeos são considerados hospedeiros acidentais e terminais: a infecção nesses mamíferos não é suficiente para infectar mosquitos e o ciclo de transmissão viral é encerrado.

O vírus da Febre do Nilo Ocidental está presente em diversos países, com distribuição na Europa, Ásia, África, Oceania e América do Norte. Não há descrição de circulação sustentada na América do Sul, mas casos esporádicos e surtos já foram relatados.

Leia também: Encefalites agudas: Uma revisão sobre a abordagem

Quadro clínico

A maioria das infecções em humanos é assintomática, mas, quando sintomas ocorrem, iniciam-se aproximadamente após 2 a 6 dias após a infecção. Contudo esse período de incubação pode estender-se até 14 dias ou mais, especialmente em pacientes imunossuprimidos.

Estima-se que 20% dos indivíduos infectados apresentam doença sintomática, na maioria das vezes leves, sendo os sintomas mais comuns: febre aguda e alta de início abrupto, mal-estar, anorexia, náuseas, vômitos, cefaleia, dor ocular, mialgia, exantema maculopapular e linfoadenopatia. Diarreia, tosse e dor de garganta também podem ocorrer.

Quadros mais graves podem se apresentar como miocardite, pancreatite e hepatite, mas manifestações neurológicas são as mais conhecidas, apesar de ocorrem em menos de 1% dos casos. Geralmente, há uma fase prodrômica febril inespecífica, com duração de 1 a 7 dias, podendo ser bifásica. Em 15 a 20% dos indivíduos, há manifestações consideradas mais típicas, incluindo dor ocular, congestão facial ou rash.

O quadro neurológico mais frequente é o de encefalite, seguido de meningite. Os sintomas incluem febre, fraqueza, sintomas gastrointestinais e alteração do estado mental. Rash maculopapular ou morbiliforme pode estar presente, envolvendo pescoço, tronco e membros.

Paralisia flácida também já foi descrita, secundária ao acometimento do corno anterior da medula espinhal, sendo frequentemente assimétrica e podendo estar ou não associada à meningoencefalite. Uma vez estabelecida, recuperação da paralisia a longo prazo é raro.

Laboratorialmente, cerca de 50% dos pacientes apresentam leucocitose e 15%, leucopenia. Hiponatremia às vezes pode estar presente. A análise do líquor tipicamente demonstra pleocitose moderada com predomínio de linfócitos, mas um padrão com predomínio de neutrófilos ou acelular também pode ocorrer. As proteínas estão geralmente moderadamente elevadas e a glicemia, normal. O EEG pode mostrar lentificação difusa e, em alguns casos, atividade focal.

As taxas de fatalidade variam de 4 a 14%, mas foram mais altas em pacientes mais velhos. Outros fatores de risco para mortalidade incluem presença de fraqueza profunda, coma, falha na produção de anticorpos, imunossupressão e presença de comorbidades. As sequelas neurológicas são comuns, com apenas 1/3 dos pacientes se recuperando completamente 1 ano após a doença em um estudo.

Saiba mais: Febre oropouche: Como estamos no Brasil?

Casos no Brasil

Até o momento, foram confirmados 4 casos de Febre do Nilo Ocidental no Brasil em 2026: dois no estado de São Paulo e dois em Santa Catarina. Além disso, um caso suspeito está sob investigação no Piauí. Recentemente, também foi confirmado o primeiro óbito pela doença no estado de Santa Catarina – uma mulher de 77 anos.

Os prováveis locais de infecção ainda estão sendo investigados em ambos os estados afetados, não se podendo afirmar, até o momento, se são casos importados de outras regiões ou se houve transmissão local.

Diagnóstico

O teste diagnóstico mais comum é a realização de sorologia, com detecção de anticorpos IgM em amostras de soro coletadas a partir do 5° dia de doença ou em amostras de líquor, para os casos com comprometimento de sistema nervoso central.

Além da elevada proporção de casos assintomáticos ou com sintomas inespecíficos, uma das grandes dificuldades diagnósticas da Febre do Nilo Ocidental é a possibilidade de reação cruzada com outros Flavivirus, incluindo os vírus de dengue, zika e Chikungunya, que são os principais diagnósticos diferenciais da doença. Outras metodologias podem ser empregadas, como técnicas moleculares (PCR), inibição de hemaglutinação e isolamento viral.

Tratamento

Não existe tratamento específico para Febre do Nilo Ocidental. O manejo é baseado em medidas de suporte e tratamento sintomático, com recomendação de repouso, manutenção de hidratação adequada e, se necessário, observação em regime hospitalar. Para casos graves, com acometimento neurológico, o paciente deve ser admitido em unidade de terapia intensiva.

Entenda: Meningite/Encefalite: a importância do teste PCR multiplex

Prevenção e vigilância

Não existe vacina para a doença e as medidas preventivas são as mesmas para outras arboviroses, com medidas individuais e de controle de vetor:

  • Uso de repelentes
  • Evitar exposição aos mosquitos vetores, principalmente ao amanhecer e ao entardecer
  • Uso de telas em janelas e portas
  • Evitar água parada e locais sem saneamento básico
  • Não despejar lixo em valas, valetas, margens de córregos, rios e riachos
  • Evitar manusear animais mortos 

Trabalhadores que atuam ao ar livre são considerados como em risco, incluindo médicos veterinários, agrônomos, zootecnistas, biólogos, agricultores, paisagistas, jardineiros, trabalhadores da construção civil, entomologistas, entre outros.

As ações de vigilância envolvem a notificação não só de casos suspeitos em humanos, mas também em animais que podem atuar como hospedeiros. Dessa forma, devem ser notificados aos órgãos de vigilância municipais os casos de epizootias (adoecimento ou morte) de equídeos com manifestações neurológicas e/ou de aves silvestres.

Para humanos, os casos são notificados na Ficha de Investigação de Febre do Nilo e outras arboviroses de importância em saúde pública. Para fins de vigilância e notificação, a definição de caso suspeito é a seguinte:

Indivíduo que apresentou doença febril aguda inespecífica, acompanhada de manifestações neurológicas de provável etiologia viral, compatíveis com meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda.

Autoria

Foto de Isabel Cristina Melo Mendes

Isabel Cristina Melo Mendes

Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro

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Referências bibliográficas

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