A bacteremia por Staphylococcus aureus (SAB, da sigla em inglês) é uma infecção grave e complexa, frequentemente associada a focos profundos e metastáticos. O consenso publicado em setembro de 2026 pela IDSA/ESCMID (Sociedade Americana de Doenças Infecciosas/Sociedade Europeia de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas) destaca a mortalidade por todas as causas em 30 dias entre 15% e 30% e ressalta que a disseminação pode permanecer oculta na apresentação inicial. Nesse cenário, classificar a doença apenas como complicada ou não complicada pode simplificar uma condição heterogênea e dinâmica.
Com base na revisão das evidências disponíveis em adultos e crianças, a Parte 1 do consenso formulou sete tópicos sobre estratificação de risco, hemoculturas seriadas, ecocardiografia, imagem de corpo inteiro e duração do tratamento. O manejo definitivo de MRSA (Staphylococcus aureus resistente à Meticilina) e MSSA (Staphylococcus aureus sensível à Meticilina) será abordado em publicações futuras.

A estratificação de risco organiza o manejo
Nos adultos, recomenda-se substituir a antiga classificação binária (complicada/não compliacada) por uma avaliação de baixo risco ou risco aumentado, reavaliada durante a evolução. Os três principais fatores associados de forma consistente a focos profundos, disseminação metastática ou recidiva são: doença comunitária, hemocultura positiva pelo menos 48 horas após a primeira cultura positiva e presença de dispositivo intracardíaco.
Também deve-se considerar condições valvares predisponentes, uso de drogas injetáveis, enxerto endovascular, episódio de SAB nos 90 dias anteriores, manifestações de foco profundo, eventos embólicos, focos não contíguos e origem desconhecida. Anamnese, exame físico seriado e avaliação contínua são centrais, tendo em vista que o risco pode mudar durante o tratamento. Em crianças, os dados não permitem definir um grupo confiável de baixo risco, e o painel sugere avaliar todas quanto à presença de foco profundo. O próprio modelo de estratificação ainda necessita de validação.
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Quando repetir hemoculturas de acompanhamento?
Em adultos, recomenda-se coletar pelo menos duas amostras de hemoculturas de acompanhamento 48 horas após a primeira hemocultura positiva e repetir a coleta a cada 24 a 48 horas até a negativação. Persistência da positividade a partir de 48 horas deve ampliar a investigação de focos profundos ou metastáticos e levar à reavaliação do controle de foco.
A primeira cultura negativa, desde que não seja seguida por uma nova positiva, define o clareamento microbiológico e serve como referência para o cálculo da duração do tratamento. Quando o controle da fonte ocorre posteriormente, a data da remoção do foco pode ser adotada como início da terapia. Em pediatria, aplica-se estratégia semelhante, com ajuste do volume de sangue e número de frascos à idade e ao peso.
Ecocardiografia transtorácica em todos os adultos
O painel sugere ecocardiografia transtorácica (ETT) de rotina em todos os adultos com SAB, pois não conseguiu estabelecer critérios consistentes para uma população com risco suficientemente baixo de endocardite. Em crianças, a ETT é indicada rotineiramente na presença de cardiopatia estrutural, bacteremia prolongada ou manifestações sugestivas de endocardite e pode ser omitida quando esses fatores estão ausentes e a suspeita clínica é baixa.
Com ETT negativa, a ecocardiografia transesofágica (ETE) é sugerida em adultos com dispositivo intracardíaco, condição valvar predisponente, hemoculturas persistentes, eventos embólicos ou mais de um foco infeccioso não contíguo. Doença comunitária e uso de drogas injetáveis também justificam consideração individual da ETE. Quando a ETT negativa é de boa qualidade e não existem características de risco aumentado para endocardite infecciosa, a ETE pode ser desnecessária. Em crianças, deve ser reservada principalmente para suspeita clínica elevada com ETT negativa ou inconclusiva.
Em adultos de risco aumentado e sem origem definida após avaliação inicial adequada, o painel sugere imagem de corpo inteiro, incluindo PET/CT com [18F]FDG, ou uma combinação de métodos que investige os locais mais prováveis de infecção. A evidência disponível para PET/CT deriva de estudos observacionais; permanecem lacunas sobre seu impacto em mortalidade e recidiva quando comparado a exames orientados por sintomas ou estratégias multimodais. Um ponto importante sobre esse exame é o custo elevado e a disponibilidade de serviços para realizá-lo.
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Tempo de tratamento
Adultos de baixo risco sem focos profundos ou metastáticos devem receber 14 dias de antibioticoterapia. O mesmo período é sugerido para pacientes de risco aumentado cuja investigação individualizada não identifique esses focos. Cursos mais longos devem ser considerados na bacteremia prolongada, sobretudo quando a avaliação diagnóstica foi incompleta ou limitada. Para crianças sem foco profundo ou metastático após investigação adequada, o painel também sugere 14 dias.
Na prática da enfermaria ou do plantão, a bacteremia por Staphylococcus aureus passa a exigir uma sequência explícita: documentar o clareamento das hemoculturas de controle, procurar endocardite e outros focos conforme o risco, controlar a fonte e reavaliar o paciente ao longo da evolução. O impacto clínico central é deslocar a decisão terapêutica da antiga etiqueta de doença complicada ou não complicada para uma classificação baseada em risco e na demonstração ou exclusão adequada de focos profundos ou metastáticos. A disponibilidade dos exames e as circunstâncias individuais permanecem determinantes para sua aplicação.
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Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Camila Rangel
Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.
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