O câncer do colo do útero permanece entre as neoplasias malignas mais frequentes em mulheres em todo o mundo e constitui uma das principais causas de mortalidade por câncer nessa população, com maior impacto nos países de baixa e média renda. O tratamento das lesões intraepiteliais cervicais de alto grau apresenta elevada eficácia, mas, após a retirada da lesão, permanece uma pergunta importante na prática ginecológica: como identificar quem necessita de investigação adicional e quem pode seguir com uma vigilância menos intensiva?
Evidências comparativas de acurácia diagnóstica demonstraram consistentemente que o teste de HPV de alto risco (HPV-AR) apresenta maior sensibilidade do que a citologia para detectar lesões de alto grau, embora com alguma redução da especificidade, tanto no rastreamento primário quanto nos cenários de triagem e seguimento. Considerando essa questão, uma revisão sistemática publicada na revista Medical Sciences, em setembro de 2026, tentou responder à seguinte pergunta: “Em mulheres submetidas a tratamento excisional de NIC 2, 3 ou HSIL, qual é o desempenho do teste de HPV de alto risco após o tratamento, comparado à citologia e ao estado das margens cirúrgicas, para identificar doença residual ou recorrente NIC 2+?”

Como a revisão foi realizada?
Os autores investigaram estudos com mulheres submetidas a tratamento excisional de neoplasia intraepitelial cervical de graus 2 ou 3 (NIC 2/3) ou lesão intraepitelial escamosa de alto grau (HSIL) seguindo as recomendações do PRISMA. O teste de interesse foi a pesquisa de HPV de alto risco após o procedimento, comparada, quando possível, à citologia e ao estado das margens cirúrgicas. A busca foi realizada no PubMed/MEDLINE, Embase e CENTRAL e incluiu basicamente estudos observacionais. O QUADAS-2 foi utilizado para avaliar o risco de viés.
O QUADAS-2 (Quality Assessment of Diagnostic Accuracy Studies–2) é uma ferramenta para avaliar o risco de viés e a aplicabilidade dos estudos de acurácia. Essa ferramenta auxilia na avaliação de superestimação do desempenho de um teste por problemas metodológicos.
O que os autores encontraram?
Nos 15 estudos primários incluídos (21.932 mulheres tratadas), 18.992 delas integraram as análises específicas dos desfechos. Na maioria dos estudos com desfechos explicitamente definidos como lesões de alto grau, as frequências de doença residual ou recorrente variaram de 1,9% a 6,8%. Uma coorte mais antiga, com verificação diagnóstica intensiva, apresentou frequência de 11,8%. As taxas mais elevadas em outros relatos refletiam NIC de qualquer grau ou desfechos compostos e não foram consideradas como NIC 2+.
No subgrupo de estudos que apresentaram medidas de acurácia diretamente comparáveis, o teste de HPV de alto risco foi, em geral, mais sensível que a citologia, e os valores preditivos negativos variaram de 98,0% a 100%. Porém, é importante avaliar esses resultados com cautela, pois a prevalência de recorrência foi baixa e a verificação histológica foi incompleta em várias coortes.
Cinco estudos foram classificados como de baixo risco global de viés, oito como de risco incerto e dois como de alto risco, no que se refere às suas contribuições para a análise de acurácia diagnóstica.
As margens cirúrgicas comprometidas permanecem associadas a maior risco de doença após o tratamento nos estudos. Entretanto, os autores destacam a importância de integrar o resultado anatomopatológico à pesquisa de HPV no acompanhamento. A persistência do mesmo genótipo viral também pode ajudar na estratificação de risco. Em um dos estudos, essa abordagem aumentou a especificidade e o valor preditivo positivo, mas reduziu a sensibilidade em comparação com a pesquisa conjunta dos genótipos de alto risco.
Comentários e limitações do estudo
A principal limitação é que nem todas as mulheres tiveram a presença ou ausência de lesão confirmada por exame histológico. Em algumas coortes, essa investigação foi realizada principalmente nas pacientes com teste de HPV positivo. Assim, eventuais lesões entre aquelas com teste negativo podem ter passado despercebidas, fazendo o exame parecer mais confiável do que realmente é.
Além disso, a avaliação pelo QUADAS-2 classificou cinco estudos como de baixo risco de viés e dois como de alto risco. Nos outros oito, as informações disponíveis foram insuficientes para um julgamento seguro. Isso significa que, na maioria dos estudos, não foi possível descartar problemas que poderiam afetar as estimativas de desempenho do teste.
Os autores também apontam que houve heterogeneidade na forma como foi realizado o seguimento dos desfechos. Os estudos incluídos utilizaram diferentes testes, definições de doença e tempos de acompanhamento, dificultando a comparação dos resultados.
Embora tenham sido incluídos 15 estudos, duas grandes coortes reuniram 62,2% das participantes. Dessa forma, boa parte dos dados veio de apenas duas populações, e o número total de mulheres não garante que os resultados se apliquem igualmente a outros serviços e contextos.
O que isso significa para a prática clínica?
A revisão sugere o uso do teste de HPV de alto risco como componente da vigilância após tratamento excisional, com o objetivo de identificar pacientes com menor risco de doença residual ou recorrente. Para o ginecologista, fica a mensagem de que um teste de HPV negativo após o tratamento reduz o risco estimado, mas não apaga o histórico de lesão de alto grau. A expressão “teste de cura” deve ser explicada à paciente como uma ferramenta para orientar o seguimento, sem transmitir a ideia de risco definitivamente eliminado.
Autoria
Sérgio Okano
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.