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Ginecologia e Obstetrícia16 outubro 2026

Ferro intravenoso na anemia gestacional: eficácia clínica

O uso de ferro intravenoso na anemia gestacional reduz transfusões em 37% e eleva a ferritina materna e neonatal segundo metanálise com 29 ECRs.

Contexto Clínico e Racional da Anemia Ferropriva na Gestação 

A anemia por deficiência de ferro (ADF) atinge 37% das gestações no mundo e 20% nos Estados Unidos, associando-se a prematuridade, hemorragia pós-parto e transfusão sanguínea. Assim, a reposição eficaz de ferro é fundamental no pré-natal. 

Diretrizes do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) mantêm o ferro oral como primeira escolha, reservando a via parenteral para intolerância ou falha. Contudo, a via oral apresenta alta incidência de efeitos adversos gastrointestinais e absorção reduzida, limitando a recuperação dos estoques de ferro. 

Diante do aumento do uso de ferro intravenoso e da necessidade de evidências sobre desfechos transfusionais, pesquisadores conduziram esta metanálise para comparar a eficácia e segurança do ferro intravenoso frente ao oral na ADF gestacional.

Saiba mais: Anemia ferropriva na gestação – parte 1 – Portal Afya 

Critérios de Seleção e Métodos da Metanálise sobre Ferro Parenteral 

Trata-se de uma revisão sistemática e metanálise publicada em setembro de 2026 na revista JAMA Network Open (PROSPERO CRD420251033411), conduzida segundo diretrizes PRISMA e Cochrane. A busca incluiu Ovid MEDLINE, Embase, Scopus, Cochrane e ClinicalTrials.gov de fevereiro de 2018 a maio de 2025, atualizando uma revisão de 2019. 

Foram incluídos ensaios clínicos randomizados (ECRs) comparando qualquer formulação de ferro IV com ferro oral em gestantes com ADF. Excluíram-se populações não grávidas, estudos observacionais e textos em outros idiomas que não o inglês. 

Os desfechos primários foram hemoglobina e ferritina maternas no parto. Os desfechos secundários englobaram hemoglobina e ferritina entre 4 e 6 semanas pós-tratamento, transfusão sanguínea, cesariana, idade gestacional, peso ao nascer, hemoglobina e ferritina neonatais e reações adversas. Análises estratificadas avaliaram gravidade pré-tratamento (hemoglobina ≤ 9,0 g/dL vs > 9,0 g/dL), qualidade e cenário geográfico, utilizando modelos de efeitos aleatórios com diferenças médias ponderadas (WMD) e riscos relativos (RR) com IC 95%.
Saiba mais: Avaliação da deficiência de ferro durante a gestação – Portal Afya

Evidências Hematológicas e Redução de Transfusões com Ferro Intravenoso 

A metanálise incluiu 29 ECRs totalizando 11.771 participantes (5.877 no grupo ferro IV e 5.894 no grupo oral). Na admissão para o parto, o ferro IV promoveu aumento na hemoglobina materna (WMD 0,59 g/dL [IC 95% 0,31-0,87]; p < 0,001; 15 estudos) e na ferritina materna (WMD 50,93 ng/mL [IC 95% 33,56-68,29]; p < 0,001; 8 estudos). No subgrupo com hemoglobina inicial ≤ 9,0 g/dL, o ganho de hemoglobina foi maior (WMD 0,70 g/dL [IC 95% 0,19-1,21]) do que com hemoglobina > 9,0 g/dL (WMD 0,47 g/dL [IC 95% 0,27-0,68]). 

O ferro IV reduziu em 37% a transfusão sanguínea no parto (RR 0,63 [IC 95% 0,49-0,82]; p < 0,001; 14 estudos). Nas gestantes com hemoglobina prévia ≤ 9,0 g/dL, a redução atingiu 42% (RR 0,58 [IC 95% 0,45-0,76]), sem diferença com hemoglobina > 9,0 g/dL (RR 0,95 [IC 95% 0,49-1,86]). Entre 4 e 6 semanas pós-tratamento, houve elevação da hemoglobina (WMD 0,64 g/dL [IC 95% 0,44-0,85]) e da ferritina (WMD 72,70 ng/mL [IC 95% 62,97-82,43]). 

Nos desfechos neonatais, o ferro IV elevou a ferritina neonatal ao nascimento (WMD 21,38 ng/mL [IC 95% 5,50-37,25]; p = 0,01; 8 estudos). Não houve diferenças na cesariana (RR 0,98 [IC 95% 0,90-1,06]), idade gestacional ao parto (WMD 0,14 semanas [IC 95% -0,01 a 0,29]), peso ao nascer (WMD 14,34 g [IC 95% -5,40 a 34,07]) ou hemoglobina neonatal (WMD -0,09 g/dL [IC 95% -0,24 a 0,06]). 

Perfil de Segurança e Tolerabilidade da Terapia Parenteral 

O ferro IV apresentou taxa 44% menor de reações adversas leves comparado ao oral (RR 0,56 [IC 95% 0,41-0,76]; 31 estudos), pela redução de 89% nos efeitos gastrointestinais leves (RR 0,11 [IC 95% 0,05-0,23]; 20 estudos). Eventos não gastrointestinais leves não diferiram (RR 1,65 [IC 95% 0,81-3,35]; 25 estudos). Não foram relatados eventos graves ou anafilaxia nos 10 estudos que avaliaram o desfecho. 

Impacto na Conduta Médica e Diretrizes do Pré-Natal no Brasil 

A metanálise traz impacto na prática ambulatorial, de enfermaria e de plantão obstétrico. A redução de 42% na transfusão em gestantes com anemia moderada a grave (hemoglobina ≤ 9,0 g/dL) demonstra que o tratamento parenteral evita morbidades e previne a aloimunização eritrocitária materna.

Saiba mais: Transfusão de hemocomponentes: conceitos básicos – Portal Afya

Na realidade brasileira, a reposição intravenosa de ferro deve ser indicação preferencial em: 

  1. Anemia ferropriva moderada a grave (hemoglobina ≤ 9,0 g/dL); 
  1. Diagnóstico no final do segundo ou terceiro trimestre, quando o tempo para resposta oral é reduzido; 
  1. Intolerância gastrointestinal ao ferro oral ou falha na absorção. 

A elevação da ferritina neonatal protege as reservas de ferro do recém-nascido, otimizando a segurança materna e perinatal. 

Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

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Referências bibliográficas

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