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Gastroenterologia21 outubro 2026

Novo consenso orienta o manejo da síndrome de polipose serrilhada

Na síndrome de polipose serrilhada, critérios diagnósticos, manejo endoscópico e vigilância orientam a prevenção do câncer colorretal
Por Leandro Lima

As principais sociedades norte-americanas de gastroenterologia — AGA, ACG e ASGE — publicaram, em outubro de 2026, um novo consenso sobre a síndrome de polipose serrilhada (SPS), elaborado por uma força-tarefa conjunta.

O consenso aborda identificação, diagnóstico, manejo endoscópico, vigilância e rastreamento familiar. A revisão da literatura incluiu MEDLINE, EMBASE e Cochrane, contemplando publicações em entre janeiro de 2005 e junho de 2025.

Na síndrome de polipose serrilhada, critérios diagnósticos, manejo endoscópico e vigilância orientam a prevenção do câncer colorretal

O que caracteriza a síndrome de polipose serrilhada?

A SPS é a síndrome de polipose mais prevalente no mundo, identificada em aproximadamente uma a cada 250 colonoscopias de rastreamento e uma a cada 111 colonoscopias realizadas em pacientes com pesquisa de sangue oculto nas fezes positiva. Apesar de ser mais comum do que todas as demais síndromes de polipose somadas, permanece pouco conhecida e frequentemente subdiagnosticada.

As lesões serrilhadas compreendem os pólipos hiperplásicos, as lesões serrilhadas sésseis e os adenomas serrilhados tradicionais, sendo estes últimos menos frequentes.

Diferentemente de outras síndromes de polipose, a SPS não apresenta uma causa germinativa única identificável na maioria dos casos. Seu diagnóstico, portanto, não implica, por si só, a necessidade de solicitar um painel genético. A maioria dos casos de câncer colorretal associado à síndrome ocorre em pacientes mais idosos, sem histórico familiar relevante. A idade média de apresentação é de 60 anos, com distribuição semelhante entre os sexos e forte associação com o tabagismo.

Saiba mais: Atualização da Diretriz da ACS sobre câncer colorretal: implicações práticas

Síndrome de polipose serrilhada e o risco de câncer colorretal

O reconhecimento da SPS é fundamental por sua associação com maior risco de câncer colorretal, o que exige a remoção completa das lesões-alvo e intervalos menores entre as colonoscopias.

A via serrilhada de carcinogênese está implicada em cerca de 30% dos cânceres colorretais esporádicos e tem participação relevante nos cânceres de intervalo. A dificuldade de detecção de suas lesões precursoras contribui para esse cenário: sobretudo no caso das lesões serrilhadas sésseis, elas costumam ser planas, esbranquiçadas e mais frequentes no cólon direito. Essas características diferem das observadas nos adenomas convencionais, geralmente mais avermelhados e, por vezes, pediculados.

Quais são os critérios diagnósticos da síndrome de polipose serrilhada?

O diagnóstico considera o tamanho, a localização e o número cumulativo de pólipos serrilhados identificados ao longo da vida. Basta preencher um dos seguintes critérios:

  • Tipo 1: Pelo menos cinco pólipos serrilhados proximais ao reto, todos com tamanho ≥ 5 mm, sendo ao menos dois ≥ 10 mm;
  • Tipo 2: Mais de 20 pólipos serrilhados distribuídos pelo cólon, dos quais pelo menos cinco sejam proximais ao reto.

O tipo 1 está mais associado ao risco de câncer colorretal. Seus critérios excluem os pólipos restritos ao reto e exigem lesões de maior tamanho, reduzindo a influência dos pequenos pólipos hiperplásicos distais, geralmente de baixo potencial de progressão.

Colonoscopia na SPS exige atenção à detecção e ressecção de pólipos

A colonoscopia exige preparo intestinal adequado e inspeção meticulosa, com luz branca de alta definição e, preferencialmente, cromoscopia convencional — com índigo carmim e ácido acético — ou virtual.

O registro dos achados deve incluir o número, a localização e o tamanho dos pólipos serrilhados, agrupados nas categorias ≤ 5 mm, 6–9 mm e ≥ 10 mm. Essa documentação é essencial para reconhecer o preenchimento cumulativo dos critérios diagnósticos e orientar o acompanhamento.

Uma das métricas de qualidade é a taxa de detecção de lesões serrilhadas sésseis, com meta ≥ 6% nas colonoscopias de rotina. O acompanhamento desse indicador pode ser realizado por meio do registro individual dos exames de cada endoscopista.

A ressecção deve ser realizada preferencialmente com alça a frio, com ou sem injeção submucosa. Para lesões ≥ 10 mm, recomenda-se a mucosectomia. O uso de eletrocautério deve ser reservado às lesões com suspeita de displasia.

Saiba mais: Pólipo após colonoscopia, e agora?

Como definir os intervalos de vigilância colonoscópica na SPS?

Na fase de clareamento, o objetivo é remover todas as lesões-alvo: adenomas convencionais, lesões serrilhadas proximais ao sigmoide e pólipos serrilhados da região retossigmoidea com tamanho ≥ 3–5 mm. Nessa etapa, as colonoscopias são realizadas a cada três a seis meses, até o controle das lesões.

Na fase de vigilância, os intervalos são individualizados conforme os achados da colonoscopia mais recente:

  • Até um ano: Presença de lesão ≥ 20 mm, pelo menos três lesões de 10–19 mm, qualquer lesão serrilhada séssil com displasia, adenoma serrilhado tradicional ou adenoma convencional avançado;
  • Dois anos: Até duas lesões de 10–19 mm, com bom controle das lesões ≥ 3–5 mm;
  • Três anos, em casos selecionados: Apenas lesões pequenas e redução substancial do número total de pólipos.

A cirurgia colorretal fica reservada aos casos de câncer colorretal ou, mais raramente, às situações em que a carga de pólipos não pode ser controlada por endoscopia.

Quando iniciar o rastreamento de familiares de pacientes com SPS?

As evidências sobre o risco de câncer colorretal e de SPS em familiares de primeiro grau são heterogêneas. Ainda assim, recomenda-se iniciar o rastreamento pela colonoscopia na idade que ocorrer primeiro:

  • Aos 40 anos;
  • Dez anos antes da idade do diagnóstico mais precoce de câncer colorretal no familiar afetado;
  • Cinco anos antes da idade do diagnóstico de SPS no familiar afetado.

Recomendações práticas para o manejo da síndrome de polipose serrilhada

  • Pense em SPS diante de múltiplos pólipos serrilhados: O diagnóstico depende da contagem cumulativa ao longo das colonoscopias, e não apenas dos achados de um único exame;
  • Documente número, tamanho e localização das lesões: Esses dados orientam tanto o diagnóstico quanto a vigilância;
  • Priorize uma colonoscopia de qualidade: Preparo adequado e inspeção meticulosa, especialmente do cólon direito, são essenciais para detectar lesões discretas;
  • Primeiro, remova as lesões-alvo; depois, estabeleça a vigilância: O intervalo entre os exames deve acompanhar a carga de pólipos e os achados de maior risco;
  • O tratamento é predominantemente endoscópico: A cirurgia fica reservada ao câncer ou à impossibilidade de controlar os pólipos por endoscopia;
  • Oriente os familiares de primeiro grau: Eles devem receber uma recomendação explícita sobre quando iniciar o rastreamento.

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Graduação em Medicina em 2013 pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019).

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