A esteatose hepática associada ao metabolismo (MASLD) afeta cerca de 30-35% da população brasileira e consolidou-se como a doença hepática crônica mais prevalente do país. A despeito da enorme relevância epidemiológica, sua abordagem no sistema público de saúde ainda sofre pela falta de protocolos bem definidos, resultando em manejo inconsistente e maior risco de complicações inerentes à doença.
A MASLD já figura entre as principais causas de cirrose hepática e de carcinoma hepatocelular, e a progressão para doença avançada ocorre de modo silencioso, despercebida mesmo em pacientes que travaram contato frequente com o sistema de saúde. Sem mencionar os agravantes cardiometabólicos – obesidade, diabetes mellitus, dislipidemia, hipertensão arterial, doença coronariana e doença cerebrovascular – que acompanham a condição e merecem igual atenção.
É nesse cenário que entra a atualização de 2026, proposta pela American Gastroenterological Association (AGA), publicada na Gastroenterology: o documento organiza rastreamento, estratificação de risco e tratamento em um fluxograma aplicável à prática, com potencial de adaptação a sistemas de saúde com recursos limitados.

O que muda na abordagem da esteatose hepática pela AGA?
O pathway mantém a nomenclatura MASLD/MASH, que substituiu os termos NAFLD/NASH, e incorpora dez atualizações. As principais para a prática ambulatorial: a ampliação do rastreamento de esteatose para adultos com sobrepeso ou obesidade e pelo menos um fator de risco cardiometabólico adicional; a triagem do consumo de álcool com perguntas padronizadas; e a simplificação dos pontos de corte dos testes não invasivos de fibrose.
A atualização também passa a admitir a requisição direta de testes não invasivos baseados em imagem — elastografia transitória controlada por vibração (VCTE) ou elastografia por ressonância magnética —, dispensando o índice FIB-4 quando tais métodos estão prontamente disponíveis, sobretudo em pessoas com diabetes. O documento contempla ainda as contribuições da diretriz recentemente publicada sobre o manejo farmacológico da MASLD.
Saiba mais: Diretriz atualiza o tratamento da MASH com novas terapias
Estratificação de risco da MASLD orienta a investigação clínica
O primeiro passo é identificar quem deve ser avaliado: adultos com obesidade ou sobrepeso com fatores cardiometabólicos associados, portadores de diabetes tipo 2, esteatose já documentada por imagem e outras condições de risco.
O segundo é o exame clínico dirigido e complementado por exames laboratoriais usuais, que fornecem as medidas-chave do processo — enzimas e função hepática, contagem de plaquetas e perfil metabólico. Cabe ressaltar que há outras causas de esteatose hepática que devem ser consideradas, entre elas especialmente o consumo nocivo de álcool, a infecção pela hepatite C e o uso de certos medicamentos (corticosteroides, tamoxifeno, metotrexato, amiodarona, entre outros).
O terceiro passo envolve a aplicação de escores de estratificação simples, tendo FIB-4 como instrumento central. Pacientes com baixo risco seguem para o manejo cardiometabólico de rotina, com avaliação periódica dos parâmetros hepáticos previamente descritos; já aqueles com risco intermediário ou elevado avançam à quarta etapa, que consiste na medida de rigidez hepática por VCTE ou ressonância, ou em testes sanguíneos específicos, como o escore ELF. O resultado define a conduta: risco baixo, seguimento cardiometabólico; fibrose significativa, encaminhamento especializado e consideração de terapia direcionada à MASH. A biópsia hepática fica reservada a casos selecionados, em geral nos serviços especializados.
Em todos os cenários, o controle dos fatores de risco cardiometabólico permanece como intervenção de base: perda de peso por abordagem estruturada, manejo do diabetes, da dislipidemia e da hipertensão. A farmacoterapia específica para doença hepática fica reservada aos pacientes de maior risco que preencham os critérios de tratamento. Atualmente, apenas a semaglutida e o resmetiron são medicações aprovadas especificamente para abordagem da MASH. No entanto, além das outras indicações da semaglutida, o trabalho menciona também a utilidade da pioglitazona nos portadores de MASLD com diabetes e da tirzepatida naqueles que têm obesidade, diabetes ou apneia obstrutiva do sono.
Como aplicar as recomendações para esteatose hepática na prática?
Este trabalho tem três mensagens principais. Primeira: a MASLD é comum o suficiente para justificar busca ativa — todo adulto com obesidade, sobrepeso com fatores cardiometabólicos ou diabetes tipo 2 é candidato ao rastreamento. Segunda: a estratificação começa pelo estadiamento da fibrose, o escore de FIB-4 tem papel central nesta abordagem, sobretudo no contexto da atenção primária em saúde; a elastografia fica reservada aos casos de risco intermediário ou alto, o que racionaliza o acesso a um recurso ainda escasso na rede assistencial brasileira. Terceira: o controle cardiometabólico agressivo e a perda ponderal por abordagem integrada são as intervenções com maior impacto em mortalidade, muito antes de qualquer fármaco dirigido ao fígado.
Por fim, uma constatação dolorosa, mas premente: o SUS ainda tem muito a melhorar na abordagem da esteatose hepática. A escassez de métodos radiológicos de estadiamento de fibrose, a indisponibilidade de medicamentos específicos para tratamento da doença e a falta de protocolos atualizados para capacitação e segurança do manejo da condição desde a atenção primária são certamente os maiores desafios que temos pela frente.
Autoria

Filipe Justus
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Residências em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Mestrado em Ciências da Saúde pela UEPG. Além da atuação na Afya, trabalha como assistente de Gastroenterologia do Hospital Universitário da UEPG (HU-UEPG) e atende em consultório particular.
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