Logotipo Afya

Conteúdo Patrocinado

Apsenintersect
Anúncio
Endocrinologia3 outubro 2026

Conexão microvascular entre diabetes e insuficiência venosa crônica

Diabetes e insuficiência venosa crônica compartilham alterações da microcirculação que ajudam a explicar sua coexistência e orientam a avaliação clínica.
Por Ícaro Sampaio

Este conteúdo foi produzido pela Afya em parceria com Apsen de acordo com a Política Editorial e de Publicidade do Portal Afya.

A doença venosa crônica consiste em alterações morfológicas ou funcionais persistentes do sistema venoso e pode se manifestar desde telangiectasias e veias varicosas até edema, alterações cutâneas e úlceras venosas.1 O diabetes mellitus também compromete a microcirculação e está relacionado ao desenvolvimento de complicações como retinopatia, doença renal e neuropatia diabética.1

Embora sejam habitualmente avaliadas separadamente, doença venosa crônica e diabetes podem coexistir em uma proporção relevante de pacientes.1 Uma revisão publicada em 2021 encontrou prevalência de diabetes entre 11% e 30% em estudos envolvendo indivíduos com doença ou insuficiência venosa crônica, o que corresponde a até duas vezes a frequência descrita na população geral utilizada como comparação.1 Em um estudo transversal com 197 pacientes acompanhados por insuficiência venosa crônica, diabetes estava presente em 35 indivíduos, correspondendo a 17,8%, em comparação com 8,6% na população geral de referência.2

Uma possível explicação para essa coexistência está na presença de fatores de risco compartilhados, como idade, excesso de peso, sedentarismo, hipertensão arterial e tabagismo.1 Além disso, as duas condições apresentam alterações fisiopatológicas que convergem na microcirculação, incluindo disfunção endotelial, inflamação, estresse oxidativo, aumento da permeabilidade vascular e modificações do fluxo sanguíneo.1

Na doença venosa crônica, refluxo ou obstrução venosa podem produzir hipertensão venosa, que se transmite à microcirculação e modifica o estresse de cisalhamento sobre o endotélio.1 A ativação endotelial favorece adesão leucocitária, expressão de mediadores inflamatórios, aumento da permeabilidade vascular e sobrecarga da drenagem linfática, contribuindo para edema e alterações tróficas da pele.1 No diabetes, hiperglicemia crônica, formação de produtos de glicação avançada, estresse oxidativo e ativação de diferentes vias inflamatórias também contribuem para disfunção endotelial, redução da biodisponibilidade de óxido nítrico e aumento da permeabilidade microvascular.1

Essas semelhanças não significam que a insuficiência venosa crônica seja uma complicação microvascular clássica do diabetes.1,3 Elas indicam que alterações microcirculatórias relacionadas ao diabetes podem se somar às consequências da hipertensão venosa quando as duas condições estão presentes.1

O reconhecimento clínico dessa coexistência pode ser particularmente importante na atenção primária.3 Em um consenso Delphi modificado envolvendo 238 profissionais de diferentes especialidades e países, houve concordância de que alterações da microcirculação e os pontos de contato entre diabetes e insuficiência venosa ainda são pouco reconhecidos na prática clínica.3 Em pacientes com diabetes, a presença de edema, alterações cutâneas e sintomas nos membros inferiores, como dor, sensação de peso, prurido, queimação ou câimbras, foi considerada um motivo para investigar doença venosa crônica.3 Quando há suspeita clínica, o exame físico e a ultrassonografia duplex fazem parte da avaliação proposta para confirmação da doença venosa.3

O tratamento deve considerar separadamente as indicações relacionadas ao diabetes e à doença venosa, ao mesmo tempo em que reconhece mecanismos que podem ser comuns às duas condições.1,3 Medidas como atividade física, controle do peso e redução de fatores de risco podem interferir em componentes metabólicos, inflamatórios e hemodinâmicos, enquanto a compressão permanece uma estratégia importante para controle da hipertensão venosa e do edema quando não houver contraindicações.1,3

Entre os agentes venoativos, o dobesilato de cálcio tem ações relacionadas à microcirculação descritas em estudos farmacológicos, incluindo redução da permeabilidade capilar, da agregação plaquetária e da viscosidade sanguínea.4,5 Estudos experimentais também sugerem efeitos sobre função endotelial, disponibilidade de óxido nítrico, estresse oxidativo e sinalização relacionada ao fator de crescimento endotelial vascular, embora esses achados mecanísticos não possam ser interpretados isoladamente como demonstração de benefício clínico.1,5

A evidência clínica na insuficiência venosa crônica inclui uma revisão sistemática de ensaios randomizados que avaliou 778 participantes.4 O dobesilato de cálcio apresentou benefício sobre câimbras noturnas e desconforto, com números necessários para tratar de 8 e 4.4 No Brasil, o dobesilato de cálcio possui indicação aprovada para melhora das manifestações clínicas da insuficiência venosa crônica dos membros inferiores e para prevenção e estabilização da progressão da retinopatia diabética não proliferativa leve a moderada.6 Quando a insuficiência venosa crônica e o diabetes coexistem, o perfil do dobesilato de cálcio permite ao médico discutir o conceito de duplo benefício em um mesmo cenário clínico, contemplando duas indicações aprovadas da mesma molécula. É imprescindível ressaltar, contudo, que cada indicação possui critérios diagnósticos, objetivos terapêuticos e limites de evidência próprios. A decisão clínica deve ser sempre individualizada, sem pressupor benefício terapêutico automático para todo paciente que apresente ambas as condições simultaneamente.4,6

A avaliação de pacientes com diabetes deve incluir atenção a sintomas e sinais venosos que podem passar despercebidos durante consultas voltadas predominantemente ao controle metabólico.1,3 Da mesma forma, a presença de insuficiência venosa crônica, notadamente quando acompanhada de obesidade, edema ou outros fatores metabólicos, pode justificar maior atenção à possibilidade de diabetes concomitante.2,3

 

Conteúdo revisado por dr. Gabriel Quintino Lopes.

Autoria

Foto de Ícaro Sampaio

Ícaro Sampaio

  • Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
  • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA
  • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE
  • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
  • Médico endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Endocrinologia