O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de demência, porém ainda não sabemos ao certo quais são os benefícios de determinadas terapias anti-diabéticas na função cognitiva.
Dados recentes sugerem que os inibidores de SGLT-2 podem conferir efeito neuroprotetor nos pacientes com DM2 quando comparados com pacientes em uso de inibidores de DDP-4. Recentemente, foi publicada uma revisão sistemática/meta-análise sobre esse tema.
Vamos conferir o que temos de informações interessantes sobre esse artigo.
Introdução:
Demência é uma desordem neurodegenerativa caracterizada por declínio cognitivo e perda de independência funcional que vem se tornando um grande problema de saúde pública a nível global.
Sendo assim, estratégias para prevenção de demência devem ser colocadas em prática com mais urgência. Dentre os fatores de risco modificáveis, o diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é sabidamente associado ao aumento do risco de Doença de Alzheimer e Demência vascular. A fisiopatologia em comum envolve resistência insulínica, estresse oxidativo, inflamação crônica e disfunção microvascular.
Os inibidores de SGLT-2 são medicações com proteção cardiovascular e renal e que em alguns estudos vêm comprovando impacto benéfico na saúde neurológica por mecanismos relacionados à melhora do metabolismo cerebral, estabilização da barreira hemato-encefálica e atenuação da neuroinflamação. Em contrapartida, os inibidores de DDP-4, vêm mostrando efeito neutro em desfechos cognitivos.
O presente estudo é uma revisão sistemática e meta-análise que visa avaliar o risco de demência em pacientes com Dm2 em uso de inibidores de SGLT-2 versus inibidores de DDP-4, além de explorar tais associações para os diferentes tipos de demência (ex: doença de Alzheimer e demência vascular), bem como características demográficas dos pacientes ( ex: idade, sexo) e tipos específicos de inibidores de SGLT-2.
Metodologia:
Em base de dados eletrônicos, foram pesquisados estudos até a data de 01 de Junho de 2025.
Os critérios de inclusão foram: Ensaios clínicos randomizados (ECRS) e estudos de coorte prospectivos/retrospectivos envolvendo adultos com idade igual ou superior a 18 anos, com DM2 e tratamento iniciado com inibidores de SGLT-2 e comparados com o grupo que iniciou o tratamento com os inibidores de DDP-4.
O desfecho primário analisado foi o desenvolvimento de demência por todas as causas diagnosticada durante o período de seguimento. Desfechos secundários foram: incidência de Doença de Alzheimer e demência vascular, bem como análise de subgrupos: idade > 65 anos versus idade < 65 anos, sexo masculino versus sexo feminino; e medicamentos específicos da classe dos inibidores de SGLT-2 (dapaglifozina, canaglifozina e empaglifozina).
Os critérios de exclusão foram: estudos que não envolviam humanos, estudos de seção transversal ou em braço único, revisões e relatos de casos.
Resultados:
Foram selecionados 9 estudos que preencheram todos os critérios de inclusão. Os estudos eram de coorte observacionais retrospectivos publicados entre 2021 e 2025.
No total, apresentaram 2.433.086 participantes, sendo 601.692 tratados no grupo de inibidores de SGLT-2 e 1.831.394 tratados no grupo inibidores de DDP-4.
Os estudos ocorreram em diversos locais tais como: Canadá, Hong-Kong, Coréia do Sul, China, Taiwan e Reino Unido. Os pacientes que iniciaram o tratamento com inibidores de SGLT-2 eram um pouco mais jovens do que os pacientes do grupo inibidores de DDP4 ( 56,8-72,4 anos versus 61,8-72,4 anos). Além disso, no grupo dos inibidores de SGLT-2, a proporção de mulheres foi menor quando comparada ao grupo de inibidores da DDP-4.
Os inibidores de SGLT-2 foram associados a menor risco de demência quando comparados aos inibidores de DDP-4. Quando a análise foi feita por tipo de demência, eles também demonstraram menor risco para Doença de Alzheimer e Demência Vascular.
Quanto à análise de subgrupos, o risco de demência foi menor nos pacientes em uso de inibidores de SGLT-2 e idade < 65 anos, não sendo significativo a redução do risco em pacientes > 65 anos. Quanto ao sexo, a classe medicamentosa apresentou redução do risco tanto em homens quanto em mulheres. E, por fim, a dapaglifozina e a empaglifozina foram as medicações mais associadas à redução do risco de demência, enquanto a canaglifozina não demonstrou tal associação.
Discussão:
A presente meta-análise mostrou que os inibidores de SGLT-2 estão fortemente associados a um menor risco de demência quando comparados com os inibidores de DDP-4.
Tais achados são muito valiosos para a prática clínica, visto que traz luz para a necessidade de priorizar o uso dos inibidores de SGLT-2 em pacientes com maior risco para desenvolver demência, bem como para os pacientes nos quais também se deseja proteção cardiovascular e renal.
No entanto, como qualquer estudo, esse também contou com algumas limitações tais como: caráter observacional e pouco tempo de seguimento.
Conclusão e Mensagem Prática:
A presente meta-análise demostrou uma associação significativa entre os pacientes com DM2 em uso de inibidores de SGLT-2 e a redução do risco de desenvolvimento de demência, incluindo Doença de Alzheimer e Demência Vascular quando comparados a pacientes com DM2 e em uso de Inibidores de DDP-4. Os benefícios foram observados em ambos os sexos e mesmo em populações de áreas demográficas diferentes, sendo mais significativos em pacientes em uso de dapaglifozina ou empaglifozina.
Tais achados suportam o potencial papel dos inibidores de SGLT2- na preservação da função cognitiva em pacientes com DM2. No entanto, mais estudos são necessários para validar os mecanismos dessa associação de forma a melhorar o manejo do DM2 e prevenir o risco de demência nesse perfil de pacientes.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Editora-médica do Portal Afya.
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