A tirzepatida vem sendo bastante estudada e vem demonstrando resultados muito positivos, o que gera ainda mais expectativa sobre seu uso em situações específicas. Esta droga é um agonista dos receptores de GLP-1 e de GIP, e demonstrou potencial para redução de peso e de hemoglobina glicada quando comparada ao placebo e até mesmo quando comparada à semaglutida 1mg. [1-3]
Estes bons resultados aumentam a expectativa de seu potencial efeito em outras comorbidades, como a insuficiência cardíaca, por exemplo. Usar a medicação em pacientes com obesidade e insuficiência cardíaca pode reduzir desfechos cardiovasculares e melhorar a qualidade de vida destes pacientes? Este foi o questionamento que o estudo SUMMIT buscou responder. [4]
Publicado em novembro de 2024 e apresentado no congresso da American Heart Association (AHA), o SUMMIT foi um estudo que randomizou pacientes com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada (ICFEp) e obesidade (IMC ≥ 30kg/m²) para receber tirzepatida ou placebo por pelo menos 1 ano. Foram avaliados dois desfechos primários, sendo o primeiro um composto de morte cardiovascular (com adjudicação) e evento relacionado a piora da IC, e o segundo a variação em um questionário de qualidade de vida (Kansas City Cardiomyopathy Questionnaire Clinical Summary score [KCCQ-CSS]). O evento relacionado a piora da IC era definido como piora dos sintomas de IC resultando em um dos abaixo: [4]
– Hospitalização
– Visita ao departamento de emergência com necessidade de terapia endovenosa
– Intensificação da diureticoterapia por via oral
Além de ICFEp e obesidade, os pacientes deveriam ter pelo menos 40 anos de idade, um teste de caminhada de 6 minutos entre 100 e 425 metros, um KCCQ-CSS de 80 ou menos (o teste varia de 0 a 100, sendo 100 o máximo resultado de qualidade de vida) e pelo menos um critério objetivo adicional dos abaixo: [4]
– NT-proBNP > 200pg (se ritmo sinusal) ou > 600pg (se fibrilação atrial)
– Aumento de átrio esquerdo
– Aumento das pressões de enchimento em repouso ou ao esforço
Além disso, era também critério de inclusão ao menos uma descompensação da IC no último ano ou uma taxa de filtração glomerular (TFG) menor do que 70ml/min/m². Dentre os critérios de exclusão é importante ressaltar TFG < 15ml/min/1,73m², diabetes do tipo 1 e maculopatia/retinopatia diabética grave (proliferativa ou não proliferativa com necessidade de tratamento agudamente). O grupo randomizado para tirzepatida recebeu uma dose inicial de 2,5mg, a qual foi titulada a cada 4 semanas em incrementos de 2,5mg até a dose de 15mg, caso não houvessem efeitos colaterais impeditivos. [4]
Foram incluídos 731 pacientes, com média de idade em torno de 65 anos, predominantemente classe funcional (CF) 2 (~70%), IMC médio ~38kg/m², com prevalência de doença arterial coronariana (DAC) em torno de 30%. Cerca de 48% dos pacientes tinham diabetes do tipo 2 (DM2). Em torno de 73% dos pacientes usavam diuréticos e por volta de 80% usavam inibidores da ECA (IECA). Quanto a betabloqueadores, estes eram usados em 67% do grupo tirzepatida e 71% no grupo placebo, enquanto antagonistas do receptor de mineralocorticoides eram usados por 36% no grupo tirzepatida e 34,1% no grupo placebo. Os inibidores de SGLT2 eram usados por 19% dos pacientes no grupo tirzepatida e 15% dos pacientes no grupo placebo. [4]
Quanto aos desfechos primários, morte cardiovascular ou evento de piora da IC ocorreu mais no grupo placebo do que no grupo tirzepatida (15,3% vs 9,9%; HR 0,62, IC95% 0,41 a 0,95, p=0,026). Este desfecho primário composto foi positivo principalmente às custas de eventos relacionados à piora da IC (especialmente hospitalização – 3,3% vs 7,1% em favor do grupo tirzepatida, com HR 0,44 e IC95% de 0,22 a 0,87). [4]
Em relação ao segundo desfecho primário, mudança no escore de qualidade de vida após 1 ano, o grupo tirzepatida também foi melhor, com variação no escore KCCQ-CSS de 19,5 pontos no grupo tirzepatida versus 12,7 no grupo placebo (diferença de 6,9 pontos, com IC95% de 3,3 a 10,6 e p <0,001). [4]
Como esperado, houveram mais efeitos adversos motivando interrupção do tratamento no grupo da medicação em relação ao grupo placebo, ocorrendo em 6,3% dos pacientes do grupo tirzepatida contra 1,4% do grupo placebo. Destes pacientes do grupo tirzepatida, 4,1% interromperam por sintomas gastrointestinais, os quais são comuns nesta classe de medicações. Eventos adversos graves ocorreram de forma equilibrada em ambos os grupos (26,4% versus 25,6%). [4]
Em resumo, a tirzepatida foi superior ao placebo no tratamento de pacientes com ICFEp e obesidade no estudo SUMMIT, sendo uma promissora ferramenta no tratamento destes pacientes.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.