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Cardiologia9 outubro 2026

Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026: entenda as principais mudanças

Nova diretriz foca na individualização das decisões terapêuticas conforme fragilidade, funcionalidade, cognição, multimorbidade, expectativa de vida e preferências do paciente
Por Juliana Avelar

A nova Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) atualiza a abordagem das doenças cardiovasculares na população idosa, incorporando evidências recentes e valorizando uma avaliação que ultrapassa a idade cronológica. 

O documento sucede a atualização de 2019 e estabelece como princípio central a individualização das decisões terapêuticas conforme fragilidade, funcionalidade, cognição, multimorbidade, expectativa de vida e preferências do paciente. 

Uma das novidades estruturais é a inclusão de um capítulo específico sobre síncope na pessoa idosa. A diretriz também enfatiza a integração entre cardiologia e geriatria, com participação multidisciplinar e decisões compartilhadas.

Avaliação cardiovascular da pessoa idosa

A avaliação geriátrica ampla (AGA) é um dos principais pilares do documento. A presença de doença cardiovascular, isoladamente, não determina a intensidade do tratamento. É necessário identificar fatores que modificam o benefício esperado, o risco de complicações e a capacidade de recuperação após intervenções. 

A avaliação deve contemplar: 

Domínio Aspectos avaliados 
Fragilidade Reserva fisiológica, vulnerabilidade e risco de eventos adversos 
Funcionalidade Independência para atividades básicas e instrumentais 
Cognição Comprometimento cognitivo e capacidade de participação nas decisões 
Nutrição Desnutrição, perda ponderal e sarcopenia 
Multimorbidade Interação entre doenças e prioridades terapêuticas 
Polifarmácia Interações, efeitos adversos e adequação das prescrições 
Contexto social Rede de apoio, cuidador e acesso ao tratamento 

A identificação dessas condições permite reconhecer pacientes que podem se beneficiar de tratamentos intensivos e aqueles nos quais a estratégia deve priorizar segurança, preservação funcional e qualidade de vida. 

Implicação prática: dois pacientes de 85 anos com a mesma doença cardiovascular podem ter indicações terapêuticas distintas conforme seu estado funcional, fragilidade e prognóstico global.

Fragilidade, funcionalidade e polifarmácia

A fragilidade é uma condição de maior vulnerabilidade a eventos adversos decorrente da redução das reservas fisiológicas. Não deve ser confundida com idade avançada, multimorbidade ou incapacidade funcional, embora frequentemente coexistam. 

Sua identificação é especialmente relevante antes de procedimentos invasivos, internações e decisões terapêuticas complexas. 

Na prática, podem ser utilizados instrumentos como a Clinical Frailty Scale (CFS), o fenótipo de Fried e escalas multidimensionais, conforme o contexto clínico. A avaliação deve considerar também velocidade da marcha, força muscular, quedas, perda de peso e dependência funcional. 

A polifarmácia constitui outro desafio central. A revisão periódica das prescrições deve identificar medicamentos sem indicação atual, duplicidades terapêuticas, interações, efeitos adversos e oportunidades de desprescrição. O objetivo não é simplesmente reduzir o número de medicamentos, mas preservar aqueles com benefício clínico relevante. 

Ponto importante: a fragilidade deve modificar a avaliação de riscos e benefícios, mas não deve ser utilizada isoladamente para negar tratamentos potencialmente benéficos.

Prevenção cardiovascular no idoso

A prevenção cardiovascular exige ponderar o risco absoluto de eventos, a expectativa de vida, o tempo necessário para obter benefício terapêutico e a possibilidade de efeitos adversos. 

Na prevenção primária, a idade elevada aumenta o risco cardiovascular estimado, mas também reduz a precisão de algumas ferramentas tradicionais de estratificação. A presença de fragilidade, limitações funcionais e multimorbidade deve participar da decisão. 

A diretriz dedica atenção à investigação de aterosclerose subclínica, ao escore de cálcio coronariano, à prevenção primária da dislipidemia e ao papel da angiotomografia de coronárias. 

O escore de cálcio pode contribuir para esclarecer decisões terapêuticas em situações selecionadas, mas sua interpretação requer cautela, já que a calcificação coronariana é muito prevalente em idades avançadas. Um resultado positivo não determina automaticamente a necessidade de investigação invasiva ou de tratamento adicional. 

Também são abordados como componentes da prevenção a atividade física, a vacinação, o estado nutricional e o manejo adequado das doenças metabólicas.

Doença arterial coronariana no idoso

A diretriz aborda separadamente a doença coronariana crônica e as síndromes coronarianas agudas, destacando as particularidades diagnósticas e terapêuticas da população idosa. 

Na doença coronariana crônica, a investigação deve considerar a capacidade funcional, as limitações dos testes provocativos, as comorbidades e a possibilidade de diagnósticos alternativos para os sintomas. 

A decisão de revascularização deve integrar a extensão da doença, a intensidade dos sintomas, a resposta ao tratamento clínico, o risco do procedimento e a expectativa de benefício. Fragilidade e risco de perda funcional precisam ser avaliados antes da intervenção. 

Nas síndromes coronarianas agudas, o documento contempla apresentações clínicas, biomarcadores, tratamento antitrombótico, fibrinólise, intervenção coronariana percutânea e cirurgia de revascularização. 

Um aspecto particularmente relevante é o equilíbrio entre proteção isquêmica e risco hemorrágico, sobretudo em pacientes com insuficiência renal, anemia, fragilidade ou necessidade concomitante de anticoagulação.

Insuficiência cardíaca no idoso

A insuficiência cardíaca apresenta desafios diagnósticos específicos no envelhecimento. Dispneia, intolerância ao exercício, fadiga e edema podem coexistir com doenças pulmonares, anemia, descondicionamento físico e limitações osteoarticulares. 

A diretriz discute a interpretação dos peptídeos natriuréticos, o papel do ecocardiograma e as dificuldades para diagnosticar insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. 

No tratamento da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, são abordados os quatro pilares farmacológicos, com atenção especial à tolerabilidade no paciente idoso. 

Classe terapêutica Principal cuidado geriátrico 
IECA/BRA/ARNI Hipotensão, função renal e potássio 
Betabloqueadores Bradicardia, hipotensão e tolerabilidade à titulação 
Antagonistas mineralocorticoides Hipercalemia e deterioração da função renal 
Inibidores de SGLT2 Estado volêmico, função renal e tolerabilidade 
Diuréticos Hipovolemia, distúrbios eletrolíticos e hipotensão 

A presença de idade avançada não constitui, isoladamente, contraindicação às terapias modificadoras de prognóstico. Entretanto, a velocidade de titulação, a intensidade da monitorização e os objetivos terapêuticos devem ser individualizados.

Hipertensão arterial no idoso

O envelhecimento vascular está associado ao aumento da rigidez arterial, à elevação da pressão sistólica e ao alargamento da pressão de pulso. Ao mesmo tempo, alterações autonômicas e redução da sensibilidade barorreflexa aumentam a vulnerabilidade à hipotensão ortostática. 

A avaliação deve incluir medidas adequadas da pressão arterial, considerando a utilidade da monitorização ambulatorial ou residencial e a investigação de hipotensão postural. 

A diretriz dedica atenção específica à escolha dos anti-hipertensivos, às metas terapêuticas e às situações em que o tratamento pode aumentar o risco de eventos adversos, como demência, fragilidade, polifarmácia e pressão diastólica muito baixa. 

Implicação prática: o controle pressórico deve buscar proteção cardiovascular sem comprometer perfusão, segurança e autonomia. As metas numéricas e os ajustes para diferentes perfis de fragilidade precisam ser extraídos das tabelas específicas da diretriz.

Valvopatias na população idosa

A doença valvar degenerativa representa parcela importante da morbidade cardiovascular no envelhecimento, especialmente a estenose aórtica e a insuficiência mitral. 

A diretriz incorpora a avaliação de fragilidade, expectativa de vida, anatomia e risco de intervenção à escolha entre procedimentos cirúrgicos e transcateter. 

Na estenose aórtica, a decisão entre substituição valvar cirúrgica e TAVI deve ser compartilhada no contexto do Heart Team. Há preferência condicional por TAVI em pacientes mais idosos ou com risco cirúrgico aumentado, enquanto a cirurgia permanece preferível em pacientes mais jovens, com maior expectativa de vida ou anatomia desfavorável à intervenção transcateter. 

Quanto à escolha da prótese cirúrgica, o documento sugere preferência por biopróteses em pacientes acima de 65 anos, individualização entre 50 e 65 anos e preferência por próteses mecânicas em pacientes mais jovens selecionados. 

A diretriz também aborda insuficiência mitral primária e secundária, métodos de imagem, intervenções transcateter e a influência da fragilidade nos resultados.

Arritmias e síncope

A inclusão de um capítulo específico sobre síncope representa uma das novidades da diretriz de 2026. 

Na pessoa idosa, a investigação deve considerar a possibilidade de mecanismos concomitantes, incluindo hipotensão ortostática, efeitos medicamentosos, alterações autonômicas e causas cardíacas. 

A avaliação inicial deve integrar história clínica, exame físico, aferição da pressão arterial em diferentes posições e eletrocardiograma, com investigação adicional direcionada pelos achados e pelo risco clínico. 

O documento também contempla as taquiarritmias e outras alterações do ritmo, considerando as particularidades do envelhecimento cardiovascular.

Como aplicar a diretriz na prática

Primeiro: caracterizar o paciente. Avaliar doença cardiovascular, fragilidade, cognição, funcionalidade e multimorbidade. 

Segundo: estimar riscos e benefícios. Considerar prognóstico, efeitos adversos, tempo até o benefício e impacto na autonomia. 

Terceiro: decidir conjuntamente. Incorporar preferências do paciente, suporte familiar e objetivos de cuidado. 

Quarto: reavaliar continuamente. Revisar prescrições, tolerabilidade, capacidade funcional e necessidade de novas intervenções. 

Considerações finais 

A Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026 reforça a transição de uma abordagem centrada exclusivamente na doença para um modelo orientado pelas características e prioridades da pessoa idosa. O objetivo é proporcionar tratamentos cardiovasculares eficazes sem desconsiderar a fragilidade, a funcionalidade e a qualidade de vida. 

Autoria

Foto de Juliana Avelar

Juliana Avelar

Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) ⦁ Residente em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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