No Cardiopapers Experience de 2024, o Dr. Geraldo Lorenzi Filho, professor livre-docente e diretor do laboratório do sono da disciplina de Pneumologia da USP, apresentou uma aula sobre Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) para o cardiologista.
A aula se iniciou com dados sobre a prevalência da AOS e um caso clínico ilustrando a relevância do problema para os cardiologistas – cerca de 30% das pessoas na cidade de São Paulo têm AOS, e esse número pode aumentar em pacientes com comorbidades como fibrilação atrial (FA), hipertensão arterial sistêmica (HAS) e doença arterial coronariana (DAC), em que a prevalência estimada gira em torno de 45%, 56% e 54%, respectivamente [1-4].
A AOS é uma síndrome caracterizada por interrupções recorrentes da respiração durante o sono, secundárias à obstrução das vias aéreas superiores. Essa obstrução costuma estar relacionada ao efeito do relaxamento muscular que ocorre durante o sono, levando à queda da língua e dos demais tecidos adjacentes, o que causa obstrução ao fluxo aéreo. As manifestações clínicas da AOS são noturnas e diurnas. Durante a noite, o paciente pode apresentar ronco alto, paradas respiratórias observáveis e sono fragmentado. Durante o dia, podem ocorrer sintomas como sonolência diurna excessiva, queda de produtividade, perda de memória, redução na libido e piora na qualidade de vida de maneira geral. Além dos sintomas, podem também ocorrer alterações metabólicas e aumento do risco cardiovascular [5-6].
Existem diversos tratamentos para a AOS, desde perda de peso, tratamento de rinite alérgica e posicionamento adequado (ex.: dormir em decúbito lateral), até aparelhos intraorais para avanço mandibular e cirurgias, sendo que o tratamento mais habitualmente relacionado à AOS é o uso de pressão positiva por meio de CPAP.
Para tratamento eficaz, no entanto, é essencial realizar o diagnóstico. Este é feito por meio de polissonografia, e existem diferentes tipos de avaliação durante o sono. O método tradicional, considerado padrão-ouro para o diagnóstico, é a polissonografia em um laboratório do sono. No entanto, este método é custoso e pode ser de difícil acesso no dia a dia. Por isso, métodos simplificados de diagnóstico foram estudados, como a polissonografia dos tipos 3 e 4, em que não há monitorização da atividade cerebral e o foco é em parâmetros cardiopulmonares, podendo ser realizadas em domicílio. Esses métodos parecem ter performance semelhante ao padrão-ouro, mas com mais fácil aplicação prática [7].
Em sua aula, o Dr. Geraldo discorreu sobre uma possibilidade interessante de diagnóstico da AOS: um dispositivo de polissonografia do tipo 4. O aparelho é fornecido ao paciente para que o exame seja realizado em domicílio. São monitorizados saturação de oxigênio, frequência cardíaca, movimento e ronco, permitindo a derivação de um IDO (índice de dessaturação de oxigênio) e de tempo com saturação abaixo de 90%. Os dados são direcionados a um aplicativo de smartphone e então registrados no portal do profissional em nuvem. O médico solicitante recebe, então, um laudo assinado por um médico do sono.
Em resumo, a AOS é um problema prevalente no consultório do cardiologista, e a suspeita clínica e o diagnóstico adequado são essenciais.
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