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Terapia Intensiva2 março 2026

Stewardship para diagnóstico de pneumonia associada à ventilação mecânica

A pneumonia associada à ventilação mecânica é a principal infecção hospitalar adquirida na UTI. Ela pode causar sepse, aumento dos custos hospitalares e aumento da morbi mortalidade. A mortalidade atribuída a esta infecção gira em torno de 5 a 10%. Por outro lado, o seu diagnóstico sofre com discordância entre os médicos e parece haver uma taxa de 30% de diagnósticos falso-positivos. Um diagnóstico falso-positivo para qualquer infecção pode gerar o uso inapropriado de antibióticos e o consequente aumento de resistência antimicrobiana. 

A política de gerenciamento de antibióticos é recente e envolve o controle da prescrição e da duração da antibioticoterapia. O gerenciamento tem sido preconizado como uma das formas de controle de resistência antimicrobiana, já que a indústria farmacêutica não tem conseguido avançar na criação ou na alteração e desenvolvimento de novos antibióticos contra bactérias resistentes. Portanto, não somente o gerenciamento do uso de antimicrobianos, mas também o possível gerenciamento (stewardship) de diagnósticos de infecções que possam aperfeiçoar a maior assertividade com uma clínica adequada e exames complementares coletados de forma protocolar. 

Nos Estados Unidos, a classificação de pneumonia associada à ventilação mecânica está contida dentro de uma árvore de “eventos” relacionados à ventilação que são condições nas quais ocorre alteração na troca gasosa/oxigenação. O CDC (Estados Unidos) aplicou estas novas definições há cerca de 12 anos e, a partir de então, os eventos se transformam em condições associadas à ventilação mecânica a partir do momento que alguma patologia pulmonar ou pleural possa alterar o status respiratório do paciente, inicialmente com alteração da troca gasosa e também da clínica de dispneia, febre e eventualmente de imagem pulmonar (exemplos: embolia ou hemorragia pulmonar, neoplasias, aspiração). É indicada então a coleta de culturas do trato respiratório, podendo ser de aspirado da traqueia ou de lavado broncoalveolar, coletado através de broncoscopia. As infecções associadas à ventilação mecânica passam a ser definidas como a junção entre uma condição associada a ventilação com culturas positivas. A pneumonia associada à ventilação mecânica difere da infecção associada a ventilação, principalmente no quesito presença de imagem compatível com pneumonia. 

Esta definição serviu para diferenciar paciente que tem traqueobronquite de outros que têm verdadeiramente pneumonia. No entanto, o uso de antibióticos não foi reduzido com essa classificação, de modo que paciente que tem traqueobronquite ou pneumonia usa antibioticoterapia quase da mesma maneira. Isto pode favorecer o aparecimento da resistência de microbiana. 

Métodos 

Então, os autores elaboraram uma pesquisa na qual eles aplicam o gerenciamento do diagnóstico através de um pacote de medidas direcionadas do serviço de controle de infecção hospitalar (SCIH), com três componentes: 

  1.  Suporte à decisão clínica para restringir o ordenamento de culturas do trato respiratório desnecessárias; 
  2.  Recomendação de coleta de lavado broncoalveolar ao invés de aspirado traqueal; 
  3.  Modificação do fluxo de resultados laboratoriais para condicionar que a cultura do lavado broncoalveolar não seja considerada se houver menos de 50% de neutrófilos na análise citológica.

Estas três medidas tentam deixar o diagnóstico de pneumonia associada a VM mais específica, evitando assim diagnósticos falso-positivos. 

Os autores da Universidade de Michigan realizaram a observação de eventos associados à ventilação e dias de ventilação mecânica em 7 UTIs do hospital entre 2017 e 2022 eles realizaram um treinamento e a intervenção do gerenciamento do diagnóstico de fevereiro de 2022 a fevereiro de 2023. Posteriormente realizaram um período de observação entre 2023 e 2025. Eles aplicaram a intervenção em duas UTIs do hospital e mantiveram a observação sem intervenção em outras cinco UTIs.  

Eles aplicaram a metodologia de diferença na diferença, que é um design de estudo é quasi experimental, com objetivo de estimar a mudança dos desfechos no grupo de intervenção relativo ao grupo de comparação ao longo do tempo, e faz um ajuste de fatores confundidores dependentes do tempo. Esta metodologia procura controlar vieses que mudam ao longo do tempo de acordo com as práticas médicas. Este método também é muito aplicado em séries temporais de observação de estudos longitudinais e que, por razões éticas, não podem ser estudos randomizados e controlados.  

Resultados 

As tendências na incidência de eventos, condições e infecções relacionadas à ventilação mecânica são muito diferentes das 2 UTIs da intervenção quando comparadas às 5 UTIs sem a intervenção. O período de um ano de 2022 a 2023 apresenta uma queda abrupta na incidência de eventos associados à ventilação, mas apresenta uma queda menor no diagnóstico das condições associadas à ventilação. Os autores diferenciam também que a infecção associada à ventilação mecânica (traqueobronquites) aumentou sua incidência durante o período do estudo, enquanto o diagnóstico de pneumonia reduziu de maneira significativa neste ano da intervenção. O único resultado significativamente diferente foi da incidência de pneumonia que já apresentava ocorrência baixa no período antes da intervenção e ficou zerada no período da intervenção nas UTIs onde foram aplicadas. Uma outra limitação do estudo é que estas 2 UTIs onde foi aplicado a intervenção já tinham uma incidência relativamente menor de pneumonia que as outras 5 de controle, e talvez estivessem fazendo diagnósticos de maneira mais específica do que as outras (1,4 versus 2,1 por 1000 dias VM). As 2 UTIs da intervenção foram potencializadas com o gerenciamento diagnóstico, já que houve redução significativa do pedido de culturas respiratórias e consequentemente, menor diagnóstico dos eventos e de infecções associadas à ventilação.  

No período pós-intervenção, a partir de 2023 até 2025, ocorreu uma tendência de retorno à linha basal do período pré-intervenção, tanto para eventos associados à ventilação, quanto às condições e infecções associadas à ventilação. A única diferença significativa no período pós-intervenção é que as 2 UTIs do estudo mantiveram uma taxa menor de pneumonia, demonstrando talvez que a educação relacionada ao diagnóstico possa ter reduzido de maneira sustentada a incidência dessa infecção. 

Mensagens para o dia-a-dia 

  • O novo conceito de gerenciamento de diagnósticos de infecções (neste caso pneumonia associada à ventilação mecânica) é adjuvante ao gerenciamento de antibióticos em UTI; 
  • A redução de diagnósticos falso-positivos pode reduzir a pressão antimicrobiana e talvez a resistência bacteriana. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.

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