Durante o II Congresso EUROBRAZIL, o Dr. João Manoel Silva Jr. conduziu o bate papo com especialista com expert Dr. Jean-Louis Teboul (França). Saiba os principais tópicos abordados.
Raciocínio Clínico
O manejo do choque deve ir além da pressão arterial e do débito cardíaco, incorporando o conceito de acoplamento ventrículo-arterial (VA coupling), que reflete a eficiência entre contratilidade cardíaca (Ees) e carga arterial (Ea).
Na prática, o ponto central é identificar o fenótipo hemodinâmico:
- Vasoplegia predominante (Ea ↓) → priorizar vasopressores
- Disfunção miocárdica (Ees ↓) → considerar inotrópicos
- Desacoplamento misto → abordagem combinada e individualizada
A avaliação à beira-leito integra ecocardiografia, responsividade a fluidos e variáveis dinâmicas, evitando intervenções inadequadas (ex.: volume em paciente já desacoplado).
O objetivo não é apenas normalizar números, mas otimizar a eficiência cardiovascular, garantindo perfusão com menor custo energético.
Assim, o VA coupling orienta uma abordagem fisiológica, dinâmica e personalizada no tratamento do choque.
Principais vieses na prática da terapia intensiva
- Reducionismo hemodinâmico: interpretar VA coupling como número isolado, sem contexto clínico
- Viés de ancoragem: assumir disfunção miocárdica e negligenciar o papel da pós-carga (ou vice-versa)
- Confusão fisiológica: dificuldade em diferenciar se o problema é contratilidade (Ees) ou carga arterial (Ea)
- Dependência de métodos indiretos: inferências imprecisas sem ecocardiografia adequada
- Intervenção inadequada: uso excessivo de fluidos em desacoplamento, piorando eficiência cardiovascular
- Negligência da dinâmica: não reavaliar o acoplamento após intervenções (vasoativos, volume, ventilação)
- Foco em metas isoladas: tratar PAM ou débito sem otimizar a eficiência do sistema
Síntese: O principal viés é não integrar o VA coupling ao raciocínio fisiológico global, levando a decisões terapêuticas desalinhadas com o real fenótipo hemodinâmico.
Limitações e Desafios
- Mensuração indireta: Ees e Ea raramente são medidos diretamente à beira-leito
- Dependência de ecocardiografia avançada: requer expertise e disponibilidade
- Variabilidade interobservador: especialmente em métodos ecocardiográficos
- Influência de condições clínicas: ventilação mecânica, arritmias e volemia alteram a interpretação
- Baixa padronização: ausência de protocolos amplamente validados para uso rotineiro
- Integração complexa: difícil aplicação rápida em cenários de alta carga assistencial
- Evidência clínica limitada: poucos estudos demonstram impacto direto em desfechos
- Treinamento insuficiente: conceito ainda pouco difundido na prática diária
Síntese: O principal desafio é traduzir um conceito fisiológico robusto em ferramenta prática, confiável e aplicável à beira-leito.
Mensagens Práticas
- Evite tratar apenas a PAM: avalie sempre se o problema é contratilidade (Ees) ou pós-carga (Ea);
- Antes de expandir volume, teste responsividade: nem todo choque é hipovolêmico
- Use ecocardiografia funcional sempre que possível: ela guia a diferenciação do fenótipo hemodinâmico;
- Ajuste vasoativos de forma individualizada: vasopressor para vasoplegia, inotrópico para disfunção miocárdica;
- Reavalie continuamente após intervenções: o acoplamento é dinâmico e muda com tratamento;
Essência: tratar o choque não é normalizar números, é restaurar a eficiência cardiovascular.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
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