A insuficiência renal aguda é resultado de várias doenças agudas que podem acontecer no paciente que interna na UTI. As mais comuns são: sepse, pós-operatórios e eventos cardiovasculares. Os pacientes que desenvolvem insuficiência renal aguda têm mortalidade que gira em torno de 20 a 30%. A maioria desses pacientes sobrevive à internação, mas estão em risco aumentado para desenvolver doença renal crônica ou insuficiência renal aguda recorrente ou eventos cardiovasculares, reinternação hospitalar e até mortalidade precoce.
Algumas reuniões de consenso de especialistas em nefrologia apontam para um pacote de cuidados após a alta deste paciente, mas não há ainda evidências de literatura para saber quais são os itens deste pacote e também se há benefício claro nos desfechos mais importantes. Os consensos atuais dizem que estes pacientes devem ser monitorados após a saída da UTI e do hospital, mas as medidas a serem programadas ainda não estão estabelecidas. É fato que os pacientes que sobrevivem após quadro de insuficiência renal aguda apresentam maior risco de complicações, principalmente cardiovasculares e nefrológicas. O artigo resume algumas medidas para condutas no paciente após a saída da internação aguda.
Resultados:
1. Comunicação entre time do hospital e atenção primária/secundária (descrição do quadro agudo e exames/prescrições na alta)
Fazer uma transição cuidadosa da hospitalização para a atenção primária secundária. O sumário de alta do paciente deve conter as informações de como ocorreu a insuficiência renal, tentando relatar qual foi a causa, a gravidade e a duração do episódio, assim como se houve necessidade de terapia renal substitutiva. É recomendável também que se anote qual era o nível sério de creatinina basal e qual é o seu nível no momento da saída do setor. Informações de prescrição também são bem-vindas e podem apontar para medicamentos que foram suspensos ou reconciliados ainda no hospital.
2. Timing: seguimento para visitas frequentes até 3 meses pós-alta
O timing para seguimento do paciente deve ser combinado no momento da alta e é realizado preferencialmente nos primeiros 3 meses, sendo que nas primeiras 2 semanas o paciente deve ter nova avaliação clínica e medida da função renal. Pode ser necessário encaminhar para o nefrologista, especialmente os pacientes que ainda têm disfunção renal persistente e não recuperaram plenamente a função renal.
3. Medir marcadores de função renal (creatinina sérica; cistatina C ?)
4. Lembrar de medir proteinúria (relação albumina/creatinina urinária)
Deve-se medir os marcadores comuns da função renal como creatinina sérica. O paciente grave na UTI pode apresentar uma função renal superestimada, já que a creatinina sérica pode estar falsamente reduzida na presença de perda de massa muscular (comum durante a internação e chega a 30% da massa corporal em casos graves). No caso de suspeita de disfunção renal mais grave, é sugerido que se meça o nível sérico de cistatina C. Esta molécula não é influenciada pela perda de massa muscular e é mais específica da função renal, sendo que seu nível de excreção é cerca de 20% menor do que a estimativa da excreção urinária de creatinina.
É muito importante também lembrar de medir a proteinúria através da relação da medida urinária de albumina e creatinina. Quando esta relação está acima de 300, esta proteinúria indica uma função renal ainda muito alterada. Menos de 20% dos pacientes egressos do hospital têm uma medida de proteinúria nos primeiros meses após a alta, fato que é frequentemente subestimado pela equipe que acompanha o paciente. A proteinúria é um excelente marcador de como a função renal vai se comportar dentro de 3 meses a 1 ano da alta hospitalar.
As recomendações de acompanhamento da função renal nos primeiros meses após a alta são bastante heterogêneas ainda, e as diretrizes europeias e americanas divergem do tempo de seguimento. Em geral, são necessários 3 meses para se dizer se o paciente precisará de assistência especializada no longo prazo. Existe ferramenta de predição de risco de desenvolvimento de doença renal terminal no primeiro ano após insuficiência renal aguda: a taxa de ocorrência deste evento é menor que 10% em geral, mas idade, sexo, proteinúria, estágio da insuficiência renal aguda (KDIGO 2 ou 3) e creatinina basal e a creatinina na alta hospitalar, podem pontuar nesta ferramenta. Se acima de 20 pontos ocorre chance de 20% de doença renal crônica avançada (James MT et al, 2017).
5. Reintroduzir medicações para comorbidades (HAS, DM): IECA/BRA, iSGLT-2, estatinas
A reintrodução de medicações de acordo com as comorbidades do paciente também é importante neste momento. Medicamentos, como inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona, são frequentemente suspensos durante a permanência no hospital e por receio de hipotensão, piora da função renal e aumento do potássio sérico. Estas medicações não são reconciliadas no médio prazo e isso pode afetar o prognóstico da doença cardiovascular e da diabetes. A recomendação é de retornar estas medicações no período de 1 a 3 meses. Embora não exista antes do randomizado controlado para esta medida, as evidências são que pacientes que ficam sem essas medicações podem apresentar aumento de evento cardiovascular.
Outra medicação é importante para ser reconciliada ou iniciada são os inibidores do cotransportador de sódio glicose 2 (iSGLT-2). Eles melhoram a glicemia nos pacientes diabéticos, mas também melhoram a função cardiovascular nos pacientes que não têm diabetes. O seu uso na hospitalização ainda é questionado, mas quando os pacientes saem da UTI e vão para enfermaria, e também no momento da saída do hospital para a casa, essas medicações devem ser lembradas e iniciadas nas primeiras 2 a 4 semanas depois de insuficiência renal aguda. Estatinas também são fundamentais em pacientes com elevação de colesterol sérico.
6. Suspender medicamentos danosos para função renal em episódios de descompensação (“sick days”)
É recomendado suspender medicamentos que possam prejudicar a função renal em episódios ocasionais de descompensação como infecções, hipotensão ou desidratação. Descontinuar temporariamente essas medicações pode evitar a piora da insuficiência renal, mas diuréticos e anti-inflamatórios podem ser suspensos durante o episódios de descompensação clínica. A evidência para esta medida ainda é incerta porque não existem estudos controlados e ela permanece apenas como recomendação de experts.
7. Estratificar risco cardiovascular (pressão arterial, aterosclerose, diabetes, insuficiência cardíaca, hábitos – tabagismo, sedentarismo)
A estratificação de risco cardiovascular deve ser realizada nesta população porque muitos desses pacientes já apresentam um aumento do risco e nunca fizeram a estratificação a nível ambulatorial. Parâmetros como pressão arterial, tabagismo, sedentarismo, presença de diabetes e dislipidemia, além de função cardíaca, devem ser realizados nos primeiros meses após a alta e pacientes que melhoram após insuficiência renal aguda. Eles apresentam em torno de 40 a 50% de aumento de risco para eventos agudos nos primeiros 3 meses a 1 ano.
8. Reabilitação física e psicossocial
9. Educação do paciente/família; engajamento
A reabilitação física e psicossocial é extremamente importante nessa população e é necessário que se eduque tanto paciente quanto familiares em relação a importância da função renal que é muitas vezes subestimada, já que só é detectada precocemente através de exames laboratoriais, já que os sintomas de insuficiência renal são frequentemente inespecíficos.
10. Coordenação do cuidado: atenção primária, nefrologista, especialistas, outros profissionais de saúde
A coordenação do cuidado através da clínica médica na atenção primária e a atenção secundária com especialistas e a ligação deles com nefrologistas deve ser realizada neste período de segmento, principalmente nos pacientes que ainda tem disfunção renal residual e não recomendo recuperar um plenamente os níveis de creatinina sérica a nível ambulatorial.
Autoria

André Japiassú
Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.
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