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Pediatria27 maio 2026

Quando considerar vitaminas A e D e zinco na infância?

Evidências sobre a suplementação e aplicações práticas na pediatria
Por mae pai Neto 3

A suplementação de micronutrientes na infância exige avaliação individualizada, pois diferentes nutrientes exercem papéis próprios e não intercambiáveis no crescimento e no desenvolvimento. Nesse contexto, vitaminas A e D e zinco merecem atenção particular na prática pediátrica por participarem de funções fisiológicas relevantes ao longo da infância, incluindo integridade epitelial, metabolismo ósseo, resposta imune e processos ligados ao desenvolvimento infantil.1-3 Ainda assim, a decisão de suplementar deve estar ancorada em faixa etária, risco de deficiência, ingestão habitual, condição clínica e robustez da evidência disponível para cada nutriente.1-3

Na tomada de decisão pediátrica, o ponto central é definir em que contextos a suplementação dessas vitaminas e desse mineral pode ser considerada de forma tecnicamente fundamentada. No caso da vitamina D, há respaldo mais consistente para suplementação ao longo da infância e da adolescência, com recomendação preventiva desde o início da vida e manutenção entre 1 e 18 anos, além de atenção adicional a grupos de maior risco para deficiência.1,2 Para a vitamina A, a indicação deve considerar tanto cenários em que a deficiência represente problema de saúde pública quanto situações de ingestão inadequada e maior vulnerabilidade nutricional.4-7 Em relação ao zinco, embora seu uso terapêutico mais consolidado esteja associado ao manejo da diarreia aguda, sua importância na infância também se insere na avaliação do aporte de micronutrientes e da qualidade da alimentação habitual, o que o mantém relevante na rotina pediátrica.3,7-11

Vitamina D: quando considerar?

A vitamina D tem papel estabelecido na homeostase do cálcio e do fósforo e na mineralização óssea.1,2 Na infância e na adolescência, a atenção a esse micronutriente é particularmente relevante, porque a deficiência pode ocorrer mesmo em países com ampla exposição solar e não se restringe a faixas etárias específicas.1

Do ponto de vista prático, trata-se de um dos micronutrientes com indicação preventiva mais bem definida ao longo da faixa pediátrica. Em crianças sem fatores de risco para deficiência de vitamina D, recomenda-se a suplementação preventiva com colecalciferol, na dose de 400 UI/dia, no primeiro ano de vida, e de 600 UI/dia, entre 1 e 18 anos, podendo doses maiores ser consideradas apenas em situações de risco específico.1 Em grupos de maior vulnerabilidade, como prematuros, filhos de mães com hipovitaminose D gestacional, crianças com pele escura e pacientes com má absorção, hepatopatia, nefropatia, obesidade ou uso de medicamentos que interfiram no metabolismo da vitamina, pode ser necessária atenção adicional ao acompanhamento e à suplementação.1 Em prematuros, evidências mais recentes mostram que estratégias de suplementação com doses mais elevadas podem melhorar desfechos de curto prazo relacionados ao status de vitamina D e ao crescimento, embora a definição do melhor esquema ainda dependa do contexto clínico e da monitorização individual.2,12

Evidências recentes mostram que diferentes estratégias de suplementação nos primeiros anos de vida apresentaram resultados globalmente semelhantes em eficácia e segurança, sem demonstrar vantagem clínica rotineira de esquemas mais intensivos.2 Fontes alimentares isoladas costumam ser insuficientes para suprir adequadamente as necessidades de vitamina D, e o leite materno contém baixos teores desse micronutriente, o que ajuda a explicar a recomendação de suplementação profilática em fases precoces da vida.1

Do ponto de vista laboratorial, a investigação deve ser direcionada a grupos de risco, e não realizada de forma universal. Para avaliação do estado nutricional relativo à vitamina D, o exame indicado é a dosagem de 25(OH)vitamina D.1 Assim, a vitamina D ocupa posição particular no contexto da pediatria, por reunir recomendação preventiva ao longo da faixa etária pediátrica e atenção adicional em situações de maior vulnerabilidade à deficiência.1,2

Vitamina A: quando considerar?

A vitamina A exerce funções reconhecidas na visão, na integridade epitelial, no crescimento e na resposta imune.3-6 Em pediatria, sua relevância torna-se especialmente importante em contextos em que a adequação desse micronutriente merece maior atenção, seja do ponto de vista populacional, seja na avaliação nutricional individual da criança.

Do ponto de vista populacional, a recomendação mais clássica permanece vinculada a contextos em que a deficiência de vitamina A constitui problema de saúde pública.4 Parte importante da evidência disponível foi construída em populações com maior risco de deficiência, especialmente em países de baixa e média renda.5,6

Do ponto de vista prático, quando a suplementação preventiva de vitamina A é indicada em contextos de saúde pública, a diretriz da Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta 100.000 UI para crianças de 6 a 11 meses em dose única e 200.000 UI para crianças de 12 a 59 meses a cada 6 meses.4 Fora desses contextos, a definição da dose deve ser individualizada, considerando faixa etária, alimentação habitual e probabilidade de deficiência.4,7

Em conjunto, esses dados sustentam que a vitamina A merece consideração em cenários de maior atenção nutricional e de maior probabilidade de deficiência, sempre com avaliação individualizada da alimentação, da vulnerabilidade clínica e do contexto em que a criança está inserida.3-7

Zinco: quando considerar?

O zinco participa do crescimento, integridade de barreiras, atividade enzimática, reparo tecidual e função imune.3,7-11 Também está envolvido em processos biológicos relacionados ao desenvolvimento infantil, incluindo síntese de RNA e DNA, divisão celular e liberação de neurotransmissores.3 No âmbito pediátrico, portanto, trata-se de um mineral com relevância clínica e nutricional ao longo da infância.

Seu uso terapêutico mais bem estabelecido permanece no manejo da diarreia aguda. O documento conjunto da OMS e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) recomenda suplementação de zinco associada às medidas habituais de reidratação.8 Em paralelo, revisões recentes também observaram benefício do zinco em desfechos relacionados à evolução clínica da diarreia aguda.8,9

Além desse cenário, o zinco mantém relevância na rotina pediátrica por sua relação com a qualidade da alimentação habitual e com a adequação do aporte de micronutrientes, especialmente em fases de crescimento acelerado.3,7,10,11 Evidências de revisão apontam efeitos favoráveis em desfechos de crescimento e morbidade em diferentes populações pediátricas enquanto documento brasileiro de referência em alimentação infantil reforça a importância da oferta adequada de micronutrientes nos primeiros anos de vida, período em que a alimentação complementar passa a exercer papel decisivo nesse aporte.7,10,11

Sob a ótica prática, a atenção ao zinco pode ser particularmente pertinente em crianças com maior vulnerabilidade nutricional, seletividade alimentar importante, crescimento acelerado ou situações em que se deseje maior atenção ao aporte de micronutrientes.3,7-11 No seguimento do prematuro, esse cuidado ganha relevância adicional, considerando a menor reserva de nutrientes ao nascimento, a rápida velocidade de crescimento pós-natal e a necessidade de suporte nutricional mais atento. Nesse contexto, a suplementação de zinco é orientada desde 36 semanas até 6 meses de idade corrigida, como parte da estratégia de suplementação pós-alta.13

Assim, além do manejo da diarreia aguda, o zinco permanece relevante na avaliação pediátrica por integrar o conjunto de nutrientes importantes ao crescimento, desenvolvimento e adequado suporte nutricional da infância.3,7-11

Alimentação complementar e avaliação do contexto nutricional

Antes de considerar suplementação, é fundamental revisar o contexto alimentar da criança. A partir dos seis meses, a alimentação complementar passa a desempenhar papel decisivo na oferta de energia e micronutrientes, em um período que coincide com maior risco de falha no crescimento e inadequações nutricionais.7 Por isso, a decisão de suplementar não deve ser dissociada da análise da alimentação habitual.

Nesse cenário, a diversidade alimentar assume papel central. A oferta regular de diferentes grupos alimentares, com predomínio de alimentos in natura e minimamente processados, contribui para a adequação de micronutrientes e para a qualidade global da dieta.3,7 Em contrapartida, baixa diversidade alimentar, seletividade importante e consumo frequente de ultraprocessados podem coexistir com aporte insuficiente de vitaminas e minerais, incluindo A, D e zinco.3,7

Esse ponto é especialmente relevante na prática pediátrica, porque muitas vezes a questão não é apenas identificar se há indicação formal de suplementação, mas reconhecer se a criança apresenta ingestão pouco confiável, padrão alimentar restrito ou maior vulnerabilidade biológica a inadequações de micronutrientes.3,7-11 Em outras palavras, a avaliação do risco nutricional e da qualidade da alimentação continua sendo parte central da decisão clínica.

Associações de micronutrientes: como enquadrar com segurança?

No manejo pediátrico, a associação de micronutrientes pode ser considerada como estratégia de aporte nutricional complementar em fases da infância nas quais haja maior atenção à adequação da ingestão e ao suporte ao crescimento, desenvolvimento e funcionamento do sistema imune.1,3,4,7 Esse enquadramento torna-se particularmente pertinente quando se considera que vitaminas A e D e zinco exercem funções fisiológicas complementares ao longo da infância.

A vitamina A está relacionada à visão, à integridade epitelial e à resposta imune.3-6 A vitamina D participa da homeostase do cálcio e do fósforo, da mineralização óssea e de funções imunes.1,2 Já o zinco se relaciona a crescimento, atividade enzimática, integridade de barreiras e funcionamento do sistema imune.3,7-11 Sob a ótica nutricional, portanto, a associação desses micronutrientes pode ser compreendida como uma alternativa de suplementação voltada ao aporte de nutrientes com relevância reconhecida em fases precoces da vida.

Esse enquadramento torna-se especialmente pertinente na prematuridade. Nesses casos, a menor transferência transplacentária de nutrientes, a rápida velocidade de crescimento pós-natal e a necessidade de suporte nutricional mais atento reforçam a importância do aporte adequado de micronutrientes. Sob essa perspectiva, a associação de vitaminas A e D e zinco pode ser compreendida como estratégia de aporte complementar particularmente relevante no acompanhamento nutricional do prematuro, já que é bem estabelecida a recomendação de suplementação desses micronutrientes além do ferro e da vitamina C para essa população.1,3,7,12-15

Esse raciocínio deve permanecer inserido em um contexto mais amplo de cuidado nutricional. A adequação de micronutrientes e a qualidade da alimentação complementar são pontos centrais nos primeiros anos de vida, de modo que a suplementação, quando considerada pertinente, deve complementar a avaliação da alimentação habitual, dos fatores de risco e das necessidades individuais da criança.1,3,7

Conclusão

  • A suplementação das vitaminas A e D e do zinco na infância deve ser considerada de forma individualizada, a partir da avaliação do contexto clínico, nutricional e etário de cada criança.1-11
  • A vitamina D ocupa o lugar mais bem estabelecido na prática pediátrica preventiva, com respaldo para suplementação ao longo da infância e da adolescência, além de atenção adicional em grupos de maior risco para deficiência.1,2
  • A vitamina A merece atenção especial em cenários de maior probabilidade de inadequação ou deficiência, especialmente em contextos de risco nutricional e oferta insuficiente de micronutrientes.3,7
  • O zinco mantém relevância tanto no manejo da diarreia aguda quanto na avaliação do aporte de micronutrientes e da qualidade da alimentação habitual, inclusive em situações que exigem um acompanhamento nutricional mais atento.3,7,11,15
  • Sob essa perspectiva, a associação das vitaminas A e D e do zinco pode integrar estratégias de aporte complementar de micronutrientes na pediatria, sobretudo em fases da infância em que haja maior cuidado com a adequação da ingesta e com o suporte ao crescimento e ao desenvolvimento.1,3,4,7,12-15

 

Revisado por: Barbara Reis

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