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5 maio 2026

Manejo integral das cólicas nos primeiros meses de vida

Limitações, segurança e abordagens complementares 
Por Isabella Leal

Manejo integral das cólicas nos primeiros meses de vida: limitações, segurança e abordagens complementares 

A cólica do lactente é um transtorno funcional comum que afeta entre 10% e 40% dos bebês nos primeiros meses de vida.1 Caracteriza-se por episódios paroxísticos de choro inconsolável, frequentemente definidos pela “regra dos três” de Wessel: choro por mais de três horas por dia, mais de três dias por semana, por pelo menos três semanas.1 Embora seja uma condição benigna e autolimitada, seu impacto na dinâmica familiar é profundo, elevando o estresse parental e o risco de depressão pós-parto.1

Limitações das opções terapêuticas disponíveis 

As intervenções farmacológicas tradicionais apresentam limitações significativas em sua eficácia e segurança. A simeticona, um medicamento amplamente utilizado, possui evidências limitadas que sustentem superioridade em relação ao placebo no tratamento da cólica infantil. Estudos sugerem que qualquer benefício percebido pode advir do efeito calmante de seu sabor adocicado ou de um efeito placebo observado nos pais.4

Outras opções, como a diciclomina, embora eficazes, são contraindicadas para lactentes menores de seis meses devido a efeitos adversos graves, como apneia e convulsões.3 A suplementação com a enzima lactase também apresenta resultados inconclusivos; revisões sistemáticas recentes mostram que apenas metade dos ensaios clínicos controlados relataram redução significativa no tempo de choro.4,5 Além disso, o uso indiscriminado de lactase pode interferir na composição da microbiota intestinal e nos benefícios osmóticos naturais da lactose.1,6

Segurança de intervenções em recém-nascidos e lactentes 

A segurança é a prioridade máxima quando falamos de recém-nascidos, devido à imaturidade da barreira cutânea, dos sistemas metabólicos e à alta sensibilidade a agentes externos.7 Intervenções como a aromaterapia e a massagem devem ser aplicadas com cautela; óleos essenciais devem ser tratados como toxinas potenciais se não forem rigorosamente diluídos e monitorados.8,9 Além disso, a administração por via oral de óleos essenciais é contraindicada nesta população.8

Em relação a terapias manuais, a osteopatia tem sido estudada como um método adjunto, com revisões indicando que técnicas como a terapia craniossacral e a mobilização musculoesquelética podem reduzir o tempo de choro e melhorar a qualidade do sono sem relatos de eventos adversos graves.10,11 Contudo, toda prática complementar deve ser supervisionada por profissionais qualificados, para evitar riscos de contaminação ou manipulação inadequada.9,12

Estratégias de comunicação com as famílias 

O manejo da cólica exige que o profissional de saúde foque não apenas no sintoma, mas na saúde mental e no bem-estar da família. Para famílias que rejeitam terapias farmacológicas tradicionais, a comunicação deve se basear na educação sobre a natureza autolimitada da condição e no oferecimento de alternativas baseadas em evidências.13

É essencial validar as percepções parentais e fortalecer o vínculo entre pais e bebês, utilizando técnicas de conforto e suporte emocional.14 O profissional deve orientar sobre a escolha segura de produtos, desencorajando o uso de substâncias sem comprovação de segurança.14

Critérios para o uso complementar de intervenções 

O uso de terapias integrativas deve ser guiado por protocolos clínicos e monitoramento contínuo.15 Entre as opções com evidência de suporte destacam-se: 

  1. Homeopatia: Um complexo homeopático contendo Chamomilla D6, Cina D6, Colocynthis D6, Lac defloratum D6 e Magnesium chloratum D6 demonstrou ser uma alternativa segura em comparação à simeticona, reduzindo significativamente os escores de queixas e sintomas objetivos em lactentes menores de seis meses. A inclusão de terapêuticas homeopáticas alinha-se à tendência atual de reduzir o estresse do lactente através de métodos que não apresentem a toxicidade dos fármacos convencionais.16,17 
  2. Fitoterapia tópica: A massagem abdominal com óleo de camomila (Matricaria chamomilla L.) tem mostrado eficácia na redução da duração diária do choro e melhora do sono, aproveitando as propriedades antiespasmódicas e carminativas da planta de forma segura para a pele sensível do bebê.18,19
  3. Aromaterapia: O uso controlado de óleo de lavanda em banhos ou massagens pode promover relaxamento e reduzir os níveis de cortisol, auxiliando no manejo do estresse neonatal.18,20 Estudos clínicos randomizados indicam que óleos essenciais podem mitigar o estresse, a dor e as alterações comportamentais em recém-nascidos.16 A utilização da aromaterapia em pediatria demonstra eficácia na modulação de estados de agitação e dor. A metanálise confirma que essa intervenção não invasiva contribui significativamente para o bem-estar do lactente, apresentando-se como uma estratégia segura para a redução de sintomas associados ao estresse e ao desconforto físico.17
  4. Medicamentos com ativos naturais: Podem ser considerados como adjuvantes no manejo do desconforto abdominal em lactentes com cólicas e flatulência, desde que empregados com critério clínico e dentro das orientações de uso. Entre os componentes vegetais tradicionalmente utilizados nessas formulações, Matricaria chamomilla é a substância com uso mais reconhecido em queixas digestivas, sendo descrita na literatura por compostos como flavonoides, cumarinas e óleos voláteis, associados a efeitos anti-inflamatórios e antiespasmódicos. Atropa belladonna contém alcaloides tropânicos, como atropina, escopolamina e hiosciamina, relacionados a ação sobre espasmos de musculatura lisa, inclusive no trato gastrintestinal. Nicotiana tabacum, por sua vez, é descrita em compêndios terapêuticos tradicionais como componente utilizado em quadros de distensão abdominal e alterações do peristaltismo intestinal. Em conjunto, esses ativos compõem preparações empregadas como tratamento auxiliar do desconforto relacionado a cólicas e gases, podendo ser inseridos em uma abordagem clínica mais ampla, associada a medidas de suporte, orientação aos cuidadores e manutenção do aleitamento materno quando possível.21

As intervenções complementares não devem substituir tratamentos médicos necessários, especialmente se houver sinais de alerta, como febre, vômitos persistentes ou falha no ganho de peso, que exigem investigação diagnóstica imediata.22,24

O manejo da cólica e do desconforto neonatal exige do profissional de saúde um olhar que ultrapassa a prescrição convencional, abraçando o binômio bebê-família de forma integral. A integração de práticas com uma abordagem natural não deve ser vista apenas como uma alternativa, mas como parte de um cuidado holístico fundamentado, onde a enfermagem e a medicina atuam na promoção do bem-estar e na redução do estresse familiar.22

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Isabella Leal

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