O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento frequente na infância e adolescência, associado a prejuízos acadêmicos, sociais e familiares.1,2 Embora os psicoestimulantes sejam opções farmacológicas amplamente utilizadas no TDAH, a condução do tratamento a longo prazo exige reavaliações sistemáticas e individualizadas.2,3 A manutenção do tratamento sem critérios periódicos de revisão ou a descontinuação sem planejamento e acompanhamento podem comprometer a adequada avaliação da relação entre benefícios, riscos e necessidade de continuidade terapêutica.2-4
O tratamento farmacológico do TDAH inclui estimulantes (metilfenidato e anfetaminas) e não estimulantes (atomoxetina e agonistas alfa-2).1,2 As duas classes reduzem os sintomas centrais e também melhoram a qualidade de vida de crianças e adolescentes.1 Retirar um estimulante pode significar reduzir a dose, suspendê-lo ou substituí-lo, e a escolha depende da resposta clínica, dos eventos adversos e dos objetivos do tratamento.3,4 Conhecer as alternativas não estimulantes, como o cloridrato de atomoxetina, é o que permite mudar de estratégia quando o estimulante deixa de ser a melhor opção.5-7
Quando a suspensão do estimulante passa a ser uma opção terapêutica?
A decisão de considerar a redução ou suspensão de um psicoestimulante deve decorrer de um processo estruturado de revisão farmacológica, levando em conta sintomas, funcionalidade, eventos adversos, preferências do paciente e da família e evolução clínica ao longo do tratamento.3,4
- Remissão sustentada e estabilidade clínica: após 9 a 12 meses de remissão ou melhora estável, ou um ano sem sintomas, sem necessidade recente de ajuste de dose e sem piora quando doses são esquecidas, pode-se considerar um teste supervisionado de redução ou suspensão, desde que haja acompanhamento clínico e possibilidade de reinstalação do tratamento, caso ocorra deterioração funcional.3,4
- Eventos adversos físicos ou neuropsiquiátricos: o aparecimento ou a manutenção de eventos adversos clinicamente significativos, como alterações importantes do apetite ou peso, dificuldades relacionadas ao sono ou outros efeitos que comprometam a tolerabilidade, é o motivo mais comum de interrupção do estimulante.3,4 Irritabilidade, alterações de humor ou outros efeitos psicológicos e comportamentais que surgem ou pioram com o estimulante exigem distinguir efeito adverso, comorbidade e evolução do próprio quadro, pois cada hipótese leva a uma conduta diferente.3
- Polifarmácia e cascata de prescrição: a necessidade de introduzir medicamentos adicionais predominantemente para manejar efeitos adversos relacionados ao tratamento inicial deve motivar revisão do esquema farmacológico como um todo.3,7 Duas ou mais medicações da mesma classe ou três a quatro psicotrópicos simultâneos sinalizam polifarmácia potencialmente inadequada.3
- Falta de eficácia ou redução da resposta terapêutica: resposta insuficiente após titulação adequada ou aparente redução do benefício ao longo do tempo justificam reavaliação diagnóstica, da adesão, da dose, de fatores contextuais e da estratégia farmacológica.2-4
- Preferência do paciente e da família: as preferências do paciente e dos responsáveis devem integrar o processo de decisão compartilhada, especialmente quando existem dúvidas quanto à necessidade de continuidade da abordagem ou interesse em avaliar o funcionamento sem a medicação.3,4
Riscos da manutenção sem reavaliação periódica
A manutenção do tratamento com psicoestimulantes requer reavaliação clínica periódica, considerando que a resposta terapêutica, a tolerabilidade, o impacto funcional e a necessidade de continuidade podem variar ao longo do desenvolvimento.3,4
Do ponto de vista cardiovascular, os medicamentos utilizados para TDAH podem estar associados a pequenas alterações na pressão arterial e na frequência cardíaca, reforçando a importância do acompanhamento clínico.8 Alterações relacionadas ao apetite, peso e crescimento também integram os parâmetros que devem ser acompanhados durante o uso prolongado de estimulantes na população pediátrica.3,4
Essa vigilância funciona melhor quando é compartilhada entre pediatra, que acompanha crescimento e sinais vitais, e neurologista ou psiquiatra infantil, que conduz o tratamento do TDAH, envolvendo também a família e a escola.3,7
Suspensão planejada: como funciona?
Nos estudos de retirada controlada, cerca de 26% a 30% das crianças e adolescentes não pioraram ao suspender o estimulante, enquanto os demais apresentaram recorrência dos sintomas ou deterioração funcional, em geral nas primeiras duas semanas.4 Os que interrompem a medicação também relatam pior qualidade de vida do que os que a mantêm.1 Por isso, a suspensão deve ser feita como um teste planejado: cerca de uma semana sem a medicação, com avaliação em casa e na escola, e, se o resultado for inconclusivo, um teste controlado por placebo de três a quatro semanas.4 Convém escolher um período de menor estresse, longe de provas e de outras mudanças importantes.3,7
Após a suspensão, deve-se avaliar se eventuais mudanças representam recorrência dos sintomas do TDAH, alterações transitórias relacionadas à retirada ou manifestações de condições clínicas e comportamentais concomitantes.3,4 Sintomas de retirada costumam surgir em horas a dias, incluir queixas físicas (como fadiga, cefaleia e cãibras) e melhorar rapidamente se a medicação for reintroduzida. Já a recaída tende a surgir depois e a reproduzir os sintomas do TDAH.3
Como os medicamentos não estimulantes agem?
O rápido início da ação e a disponibilidade de apresentações de meia-vida curta dos estimulantes permitem ajustar a dose ou fazer pausas em poucos dias.4 Os não estimulantes agem por outros mecanismos e demoram mais a gerar resposta: com a atomoxetina, o efeito pleno sobre os sintomas costuma levar de duas a quatro semanas.1,2,5 Em crianças e adolescentes, a atomoxetina também melhora a qualidade de vida, e esse efeito não variou com a duração do tratamento nos estudos analisados.1 Essa diferença de latência orienta a transição e o monitoramento descritos adiante.1
O cloridrato de atomoxetina é um inibidor seletivo do transportador pré-sináptico de noradrenalina, que reduz a recaptação e aumenta a disponibilidade sináptica desse neurotransmissor.5,6 No córtex pré-frontal, o transportador de noradrenalina também participa da remoção de dopamina da fenda sináptica.5 Dessa forma, a atomoxetina aumenta a disponibilidade de noradrenalina e dopamina nessa região cerebral, com efeito comparativamente menor sobre a neurotransmissão dopaminérgica em regiões associadas ao sistema de recompensa.5 Esse perfil farmacológico contribui para sua resposta terapêutica no TDAH e para seu baixo potencial de abuso em comparação aos psicoestimulantes.5,6
Eficácia clínica e perfil posológico em pacientes pediátricos
O cloridrato de atomoxetina é indicado para o tratamento do TDAH em adultos, adolescentes e pacientes pediátricos com idade superior a 6 anos, conforme bula aprovada no Brasil.9
A resposta clínica à atomoxetina ocorre progressivamente ao longo do tratamento.5-7 Benefícios podem surgir nas primeiras semanas, enquanto a magnitude da resposta pode aumentar com a continuidade da terapia.5,6 Por essa razão, a avaliação da eficácia deve considerar conjuntamente o tempo de tratamento, a dose alcançada, a tolerabilidade e a evolução clínica do paciente.5-7
A posologia pediátrica da atomoxetina é estabelecida de acordo com o peso corporal. Para crianças e adolescentes com até 70 kg, recomenda-se dose inicial de, aproximadamente, 0,5 mg/kg/dia. Após no mínimo três dias, a dose pode ser aumentada para, aproximadamente, 1,2 mg/kg/dia, que corresponde à dose-alvo usual. A dose máxima recomendada é de 1,4 mg/kg/dia ou 100 mg/dia, o que for menor.9 Como a atomoxetina é disponibilizada em cápsulas de doses fixas, a dose calculada em mg/kg deve ser compatibilizada com as apresentações disponíveis (cápsulas de 10, 18, 25, 40, 60, 80 e 100 mg). Vale ressaltar que essas cápsulas não devem ser abertas nem fracionadas.9
Para crianças e adolescentes com peso superior a 70 kg, a dose inicial recomendada é de 40 mg/dia. Após no mínimo três dias, a dose pode ser aumentada para aproximadamente 80 mg/dia. A dose máxima recomendada é de 100 mg/dia.9
Não há evidências de benefício adicional relevante com doses superiores à dose máxima recomendada.5,9
Estratégia de transição de prescrição
Nem toda retirada de estimulante exige substituição. Quando é preciso manter tratamento farmacológico, a atomoxetina tem vantagens em algumas situações. Em crianças com tiques, trata o TDAH sem agravá-los. A presença de comorbidades deve integrar a escolha terapêutica, considerando evidências de eficácia sobre os sintomas do transtorno, tolerabilidade e características clínicas de cada paciente.5 Quando há preocupação com uso indevido ou desvio de estimulantes, pesa a seu favor o risco de abuso desprezível.5 Na presença de transtorno opositor desafiador, doses maiores podem ser necessárias.5 Nos demais casos (evento adverso ao estimulante ou resposta insuficiente após titulação adequada), a escolha segue os critérios descritos no início do texto, considerando as preferências da criança e da família.3,4
Não há um esquema único de troca, mas três princípios orientam a decisão. Primeiro: como a resposta à atomoxetina se desenvolve progressivamente ao longo das primeiras semanas de tratamento (de duas a quatro), a retirada do estimulante deve ser planejada de modo a reduzir o risco de perda transitória do controle dos sintomas durante o período de transição.5 Segundo: recomenda-se alterar um medicamento de cada vez, para que uma eventual piora possa ser atribuída à mudança correta.3,7 Terceiro: estimulantes em monoterapia, geralmente, podem ser suspensos sem desmame, embora possam ocorrer sintomas transitórios, como fadiga, insônia, sonhos vívidos e irritabilidade. Quando o estimulante está associado a antipsicóticos, a retirada exige mais cautela, pelo risco de discinesia.3 O ritmo da transição depende, portanto, do motivo da troca: um evento adverso importante pode justificar a retirada imediata, enquanto trocas eletivas permitem uma sequência mais gradual.3,4
O que monitorar depois da troca?
A introdução da atomoxetina e a retirada do estimulante devem ser acompanhadas por avaliação clínica estruturada, com atenção à eficácia, tolerabilidade, parâmetros cardiovasculares e evolução comportamental.5,6,8,9
A pressão arterial e a frequência cardíaca devem ser avaliadas antes do início do tratamento e acompanhadas durante seu curso, especialmente após ajustes de dose. A atomoxetina pode estar associada a pequenos aumentos de frequência cardíaca e pressão arterial, motivo pelo qual esses parâmetros integram o acompanhamento de segurança.8,9
Entre os eventos adversos descritos com atomoxetina na população pediátrica encontram-se manifestações gastrointestinais, diminuição do apetite, sonolência e fadiga. Em crianças de 6 a 11 anos, a redução do apetite ocorreu em 18,1% dos tratados com atomoxetina, contra 5,3% com placebo, com perda média de 0,58 kg em seis a oito semanas; crianças de 6 a 7 anos tiveram mais sedação e dor abdominal.5 A ocorrência, intensidade e persistência desses sintomas devem ser avaliadas durante o acompanhamento clínico e consideradas nas decisões sobre titulação e continuidade do tratamento.5,6,9
A atomoxetina é metabolizada predominantemente pelo CYP2D6, e variantes genéticas dessa enzima podem produzir diferenças importantes na exposição sistêmica ao fármaco e em sua tolerabilidade.5,6 Metabolizadores lentos do CYP2D6 podem apresentar exposição à atomoxetina substancialmente maior do que metabolizadores normais (cerca de 10 vezes, em estudos de dose única em crianças).5,6 A presença de metabolismo reduzido ou o uso concomitante de inibidores potentes do CYP2D6 (como paroxetina, fluoxetina e quinidina; a fluoxetina chegou a aumentar em 3,4 vezes o pico de concentração da atomoxetina) deve, portanto, ser considerada durante a titulação e o monitoramento clínico.6,9 Em situações selecionadas, recursos de farmacogenética ou monitoramento terapêutico de fármacos podem contribuir para a individualização do tratamento, quando disponíveis e clinicamente indicados.6
Em crianças e adolescentes, alterações comportamentais, surgimento ou piora de ideação suicida e mudanças importantes do humor devem ser monitorados, especialmente no início do tratamento e após ajustes de dose.9
Considerações finais
Manter, reduzir, suspender ou substituir um estimulante deve resultar de reavaliação periódica e decisão compartilhada com o paciente e sua família.3,4 Quando a continuidade do tratamento farmacológico é necessária e uma estratégia não estimulante é considerada, a atomoxetina constitui uma opção terapêutica cuja utilização deve respeitar a posologia aprovada, o caráter progressivo da resposta e o monitoramento de eficácia e tolerabilidade.5,6,9
Mais do que estabelecer um momento fixo para a retirada do estimulante, o objetivo da reavaliação é verificar continuamente se o tratamento permanece necessário, efetivo e bem tolerado. A individualização da conduta e o acompanhamento do funcionamento da criança ou do adolescente permanecem centrais durante todo o processo terapêutico.3,4,7
Autoria
Larissa Pires Marquite da Silva
Graduada em Medicina pela UNIGRANRIO ⦁ Residência Médica em Pediatria pelo Hospital Geral de Nova Iguaçu ⦁ Título de Especialista em Neonatologia pela Sociedade Brasileira de Pediatria ⦁ Pós-Graduação em Medicina Intensiva Pediátrica e Neonatal pela Faculdade Redentor ⦁ Atualmente é Coordenadora do Serviço de Pediatria da Santa Casa de Barra Mansa ⦁ Tem experiência em Terapia Intensiva Neonatal e Pediátrica e Pediatria.
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