O XXII Encontro Brasileiro de Tireoide (EBT) 2026, realizado em Salvador no novo Centro de Convenções, consolidou-se como um marco para a endocrinologia nacional. Sob a coordenação do departamento de Tireoide da SBEM, o evento destacou-se pela multidisciplinaridade, reunindo endocrinologistas, cirurgiões, radiologistas e médicos nucleares em cursos práticos e discussões de alto nível. Com a presença de autoridades internacionais, o sucesso de público refletiu uma programação que integrou desde a ciência básica até as terapias mais modernas da área.
No campo das disfunções hormonais, o evento trouxe alertas importantes sobre o impacto dos disruptores endócrinos (como PFAS) na função tireoidiana e no desenvolvimento de nódulos, destacando riscos que podem ser transmitidos por gerações. Paralelamente, discutiu-se o risco cardiovascular no hipotireoidismo subclínico, reforçando os perfis de pacientes e pontos de corte de TSH que identificam o maior benefício do tratamento.
O manejo de nódulos e câncer de tireoide foi tema central, com ênfase nas novas diretrizes da ATA. Nos nódulos, a nova classificação propõe critérios adicionais ao TIRADS ao considerar a localização do nódulo e a extensão extratireoidiana. A tendência atual foca no descalonamento terapêutico, priorizando a lobectomia para tumores de até 4 cm e o uso de painéis moleculares para evitar cirurgias desnecessárias em nódulos de citologia indeterminada. Além disso, a vigilância ativa permanece como opção sólida para microcarcinomas sob acompanhamento especializado.
Para casos de câncer avançado, o congresso apresentou avanços em terapia-alvo e rediferenciação para tumores radioiodorresistentes, trazendo perspectivas otimistas com drogas que reinduzem a captação de iodo. Outro ponto de mudança foi o alvo de TSH pós-operatório, que agora deve ser mantido em faixas normais para pacientes com resposta excelente ao tratamento, reservando a supressão hormonal apenas para casos com evidência de doença residual ou metástase.
As controvérsias sobre tireoide e gestação foram amplamente debatidas, evidenciando as diferenças entre as diretrizes brasileiras e as futuras recomendações americanas. O alerta principal foi para o risco de supertratamento, que pode estar associado a desfechos como TDAH na infância e baixo peso ao nascer. No tratamento do hipertireoidismo, reforçou-se a segurança do uso prolongado de metimazol em doses baixas como uma alternativa eficaz e bem aceita pelos pacientes.
Por fim, o evento inovou em formatos educacionais, como os workshops interativos de oftalmopatia de Graves, que integraram diversas especialidades na resolução de casos complexos. A discussão sobre a segurança dos análogos de GLP-1 também tranquilizou os clínicos, indicando que não é necessário rastreio rotineiro de câncer de tireoide para o uso dessas medicações, exceto em casos raros de histórico de carcinoma medular. O EBT 2026 foi um sucesso, reafirmando sua posição como o fórum essencial para a atualização científica e prática na tireoidologia brasileira.
Autoria
Luciano de França Albuquerque
Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa
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