A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e fortemente associada a alguns tipos de câncer, tais como: de endométrio, esofágico, gástrico, hepático, renal, colorretal, de vesícula biliar, pancreático, próstata, tireoide e mama/ovários em mulheres pós menopausa.
O sobrepeso e a obesidade contam com aproximadamente 10% de novos casos de câncer diagnosticados anualmente nos Estados Unidos.
Sendo assim, dado a relevância do tema, recentemente foi lançada uma revisão da JAMA sobre Obesidade e Câncer. Vamos ver o que temos de informações interessantes sobre o assunto.
Introdução:
A obesidade é definida por índice de massa corporal (IMC) ≥ 30 kg/m² enquanto o sobrepeso é definido por IMC entre 25 e 29,9 kg/m². Ambas as condições estão associadas a diversas patologias cardiovasculares, mas também ao aumento do surgimento de determinados tipos de câncer.
A presente revisão visa elucidar tal associação, seus mecanismos e possíveis estratégias medicamentosas que ao tratar o excesso de peso, possam acabar reduzindo a incidência e prevalência das neoplasias associadas a ele.
>> Associação de Excesso de peso e risco de câncer:
Atualmente, 12 tipos de câncer são relacionados a obesidade pela Agência Internacional de Pesquisa de Câncer, sendo eles: colorretal, do endométrio, mama em mulheres pós menopausa, vesícula biliar, renal, hepático, ovariano, pancreático, gástrico, mieloma múltiplo e câncer de tireoide.
Muitos dos tipos de câncer associados ao excesso de peso ocorrem próximos ao tecido adiposo, justificando a forte associação entre eles e sugerindo que excesso de tecido adiposo possa ser um fator de risco para surgimento de câncer, independentemente do IMC.
>> Obesidade e Tumorigênese – Mecanismos:
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Disfunção do tecido adiposo:
A função primária do tecido adiposo é estocar energia dos lipídios na forma de ácidos graxos. Além disso, ele também secreta hormônios como adiponectina, leptina e estrogênios. A obesidade é associada a uma redução dos níveis de adiponectina que possui efeitos anti-inflamátorios e sensibilizadores da insulina. Além disso , a obesidade também aumenta a produção de estrogênio por maior expressão de aromatase. Sendo assim, os adipócitos ficam hiperplasiados e hipertrofiados levando a aumento de citocinas proinflamátorias e tumorígenas tais como: IL-1β,IL-6 e TBF-α.
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Obesidade e Sistema Imune:
Obesidade impede a habilidade do sistema imune de reconhecer e eliminar células cancerígenas por alterar a função de células imunológicas como macrófagos, linfócitos T e células mielóides supressoras.
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Metabolismo energético:
Numerosos e grandes adipócitos são os fornecedores de energia para células cancerígenas, promovendo a sobrevivência delas e aumento de chance de metástases. Pessoas com obesidade e resistência insulínica possuem menor atividade da AMPK no tecido adiposo, resultando em mais energia para células cancerígenas.
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Obesidade e Dano do DNA:
A obesidade está associada a problemas no reparo do DNA devido ao maior estresse oxidativo das células do tecido adiposo de pacientes com obesidade.
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Microbiomaintestinal:
Obesidade está associada a alterações da microbiota colônica. Com a disruptura da barreira colônica, ocorre um desequilíbrio entre as cepas, com predomínio de cepas oportunistas e declínio de cepas comensais. Desse modo, há aumento da inflamação, do estresse oxidativo e consequentemente do risco de câncer.
>> Perda de peso como forma de Reduzir o risco de Câncer associado a Obesidade:
A perda de peso em pacientes com sobrepeso e obesidade deve ser fortemente encorajada tanto para tratamento de tais condições, como também como forma preventiva de risco de câncer. As principais estratégias envolvem mudanças do estilo de vida, terapia medicamentosa e cirurgia bariátrica.
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Mudanças do estilo de vida:
Atividade física e dieta reduzem o consumo calórico, aumentam o consumo de nutrientes mais saudáveis, aumentam massa muscular e reduzem massa de gordura.
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Terapia Farmacológica:
- Metformina:Inibe a produção de glicose a nível hepático por ativar AMPK. A melhor atividade da AMPK no tecido adiposo, reduz o acúmulo de lipídios, reduz resistência insulínica e diminui a expressão de aromatase em tecidos adiposos.
Está associada a perda de de 2 a 3 kg, mas seus desafios são titulação de dose e efeitos colaterais.
- Análogos de GLP-1 e Duplo agonista de GLP-1 e GIP: Reduzem o consumo calórico ede massa de gordura, retardam o esvaziamento gástrico, aumentando a saciedade e estimulando a produção de insulina.
Estão associados a perda de 10-15% do peso corporal, mas seus desafios são seus efeitos colaterais, o custo e o fato de ao serem descontinuados gerarem reganho de peso.
- Anti-oxidantes: Seus estudos ainda são conflitantes e não podem ser generalizados, o que impede que eles sejam recomendados como forma preventiva do surgimento de câncer.
- Probióticos: Alteram a microbiota intestinal por melhorarem a qualidade e quantidade de cepas comensais. No entanto, a dose otimizada e duração de tratamento aindasão alvos de conflitos, o que também impossibilita que sejam recomendados como forma preventiva do surgimento de câncer.
- Terapia cirúrgica (Bariátrica):Associada a perda de peso mais expressiva, ela reduz o consumo calórico, massa de gordura e reduz o apetite.
Conclusão e Relevância do tema:
Sobrepeso e obesidade estão fortemente relacionados a diversos tipos de câncer. A perda de peso é um caminho importante tanto para o tratamento do excesso de peso, quanto para a prevenção do surgimento de câncer. Perdas de peso > 10% já estão fortemente associadas a redução do risco.
Nesse sentido, são necessários mais estudos para avaliar possíveis estratégias terapêuticas que possam melhorar o cenário de duas doenças tão prevalentes e avassaladoras a nível global.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Editora-médica do Portal Afya.
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