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Clínica Médica27 abril 2026

Suzetrigina: entusiasmo inicial e desafios no uso clínico

Entenda como a suzetrigina atua no tratamento da dor aguda, seus resultados clínicos, limitações e o papel desse analgésico não opioide na prática médica.

A suzetrigina, um novo analgésico não opioide, foi aprovada pela Food and Drug Administration (FDA) em fevereiro de 2025 para o tratamento da dor aguda moderada a grave e é comercializada sob o nome Journavx, pela Vertex Pharmaceuticals. Desde então, os dados de prescrição mostram um crescimento acelerado, refletindo o interesse crescente dos médicos por opções analgésicas eficazes que não carreguem os riscos clássicos dos opioides. Lançado como uma alternativa potencial aos opioides, o fármaco vem sendo rapidamente incorporado à prática clínica nos Estados Unidos, embora seu uso ainda levante dúvidas importantes sobre indicações, resposta clínica e custo-benefício. 

O que é a suzetrigina e por que ela chamou tanta atenção? 

A suzetrigina atua por um mecanismo diferente da maioria dos analgésicos disponíveis. O fármaco bloqueia seletivamente os canais de sódio NaV1.8 localizados nos nervos sensoriais periféricos, interrompendo a transmissão do sinal doloroso antes de ele alcançar o sistema nervoso central. 

Na prática, isso significa que não há atuação central, não causa sedação e depressão respiratória, e não apresenta perfil clássico de dependência 

Esse mecanismo é frequentemente comparado ao da novocaína, porém com maior seletividade e uso sistêmico controlado, o que explica o entusiasmo inicial da comunidade médica. 

Indicações aprovadas e cenários clínicos mais utilizados 

A indicação formal aprovada pela FDA é o tratamento da dor aguda moderada a grave, com base principalmente em estudos conduzidos em dor pós-operatória.

Na prática clínica, no entanto, os dados sugerem que o medicamento já vem sendo testado em outros cenários de dor aguda, o que explica parte das dúvidas atuais sobre seu uso ideal. 

Especialistas destacam que a suzetrigina parece particularmente útil em pacientes com intolerância prévia a opioides, alto risco de sedação ou constipação (especialmente idosos), que não obtiveram resposta adequada com opioides e em quem se deseja evitar qualquer efeito central. 

Prescrição 

A suzetrigina foi aprovada para uso por até 14 dias, embora, na prática, muitos pacientes utilizem o medicamento por períodos mais curtos, frequentemente apenas alguns dias. 

Os dados de prescrição analisados mostram que o medicamento vem sendo utilizado tanto como alternativa primária quanto como substituto dos opioides em alguns casos, embora há observação que apesar do aumento das prescrições – principalmente em meados de 2025 -, as prescrições de opioides também se mantiveram estáveis.

A recomendação dos especialistas é que o fármaco seja parte de uma estratégia multimodal de analgesia, e não uma solução isolada. Um ponto de atenção importante é a possível redução da eficácia de anticoncepcionais orais, aspecto que deve ser considerado na prescrição, especialmente na atenção primária. 

Resposta clínica 

Apesar do crescimento nas prescrições, a resposta clínica ao medicamento é descrita como altamente variável. Alguns pacientes relatam alívio significativo da dor aguda, enquanto outros percebem benefício mínimo. 

Essa variabilidade está relacionada ao fato de o fármaco atuar em uma via específica da dor, o que torna sua eficácia dependente do tipo de estímulo nociceptivo envolvido. 

Na prática, recomenda-se que o tratamento seja reavaliado precocemente, idealmente entre 48 e 72 horas, buscando redução de pelo menos 2 pontos na escala numérica da dor, melhora funcional objetiva e ausência de eventos adversos relevantes 

Dados de alto impacto em 2025 

Um estudo randomizado de fase 3, publicado em 2025 no New England Journal of Medicine, avaliou a suzetrigina (VX-548) em pacientes com dor aguda pós-operatória. 

Os principais resultados mostraram que: 

  • A suzetrigina reduziu significativamente em mais de 60% os escores de dor em comparação ao placebo (cerca de 30-35%).
  • A redução da dor foi comparável à obtida com opioides em doses baixas.
  • Houve menor incidência de eventos adversos gastrointestinais (cerca de 10%).
  • Não foram observados casos de depressão respiratória.
  • O perfil de segurança foi superior ao dos opioides.

Desafios na utilização 

Apesar do entusiasmo, especialistas alertam para alguns pontos críticos: 

  • Evidências ainda limitadas a tipos específicos de dor aguda
  • Uso crescente fora das indicações estudadas
  • Custo elevado, podendo chegar a US$ 500 por até 15 dias de tratamento
  • Necessidade frequente de autorização prévia pelos planos de saúde 

Mensagens para casa 

  • A suzetrigina é um novo analgésico não opioide aprovado para dor aguda moderada a grave
  • Atua bloqueando canais NaV1.8, sem ação central
  • Suas prescrições cresceram rapidamente após a aprovação, porém sem redução progressiva da prescrição de opioides
  • A resposta clínica é variável, exigindo reavaliação precoce
  • Estudos de 2025 mostram eficácia comparável a opioides em cenários específicos
  • O medicamento amplia o arsenal terapêutico, mas não substitui completamente os opioides 

Autoria

Foto de Lavínia Barcellos

Lavínia Barcellos

Médica formada pela Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - FCMS/JF. Residência em Clínica Médica pelo Hospital Central da Polícia Militar do Rio de Janeiro - HCPM/RJ. Pós-graduanda em Cuidados Paliativos pelo Américas/Afya - RJ.

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Referências bibliográficas

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