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Clínica Médica25 fevereiro 2025

Exame de urina - quando deve ser relatada a presença de espermatozoides

O exame de urina de rotina, também conhecido, por exemplo, como sumário de urina, parcial de urina, urina tipo 1, EAS ou EQU, é um dos exames laboratoriais mais comuns no dia a dia da prática médica e do Laboratório Clínico.  

Além de, geralmente, ser um material biológico de fácil obtenção, a urina é um líquido biológico riquíssimo sob o ponto de vista clínico-laboratorial. O exame simples de urina, quando devidamente analisado, interpretado e correlacionado com dados clínicos e do exame físico, constitui uma importante e custo-efetiva ferramenta diagnóstica. 

Na avaliação do exame de urina de rotina, os aspectos visuais e físico-químicos (ex.: cor, aspecto, densidade, pH, densidade, glicose, proteínas, hemoglobina, nitrito, esterase leucocitária, dentre outros), e a análise microscópica – seja óptica ou automatizada – de elementos celulares ou não celulares, são avaliados de maneira complementar entre si.  

Espermatozoides na urina versus sexo e idade 

Nessa última etapa da avaliação microscópica do sedimento urinário é que, ocasionalmente, o achado de espermatozoides na urina pode ser observado. A depender do sexo e idade do paciente, a presença de espermatozoides pode ter diferentes significados, condutas e repercussões ético-legais. 

Sexo masculino 

  • Adultos: é comum observar espermatozoides na primeira urina pós-ejaculatória em pacientes de qualquer idade, assim como em idosos por conta da contração fisiológica reduzida do esfíncter uretral interno, ambas situações sem significado clínico. A contaminação da urina com o líquido seminal, devido ao um fluxo reverso da uretra posterior para a bexiga durante a ejaculação, chamada de ejaculação retrógada, é uma das causas patológicas da presença de espermatozoides na urina, decorrente de certas condições anatômicas, neuropáticas, traumáticas e/ou farmacológicas. Dessa forma, a observação de espermatozoides em indivíduos adultos do sexo masculino deve ser relatada no laudo. 
  • Crianças e Adolescentes (< 18 anos): a primeira ejaculação de um menino, conhecido como espermarca ou semenarca, é uma emissão involuntária fisiológica de esperma, que ocorre principalmente durante o sono, em torno dos 12 a 13 anos de idade. Portanto, pode-se encontrar espermatozoides na urina desses pacientes, mesmo que esses não tenham praticado relação sexual ou masturbação nas horas que antecederam a coleta de urina. Por ser um importante marco para a determinação da maturação gonodal, a informação da presença de espermatozoides deve constar no resultado do exame. 

Sexo feminino 

  • Pessoas do sexo feminino (> 14 anos): após uma exposição sexual recente, o achado de espermatozoides na urina de mulheres pode ser detectado, sem, contudo, apresentar alguma relevância clínica. O Laboratório Clínico pode definir esse caso como critério de rejeição e solicitar uma nova amostra. Nesse contexto, a observação de espermatozoides no resultado só ganha importância com finalidades médico-legais, na qual haja suspeita de exposição sexual não consentida. Somente nesse caso, e sob demanda judicial, o relato da presença de espermatozoides deve ser realizado, assegurando-se o rigoroso cumprimento de todas as etapas da cadeia de custódia. 
  • Crianças e Adolescentes (< 14 anos): uma vez investigado e descartado possíveis erros pré-analíticos (ex.: troca de amostra, contaminação durante a coleta ou processamento), o encontro de espermatozoides na urina de pacientes do sexo feminino de até 13 anos, 11 meses e 29 dias pode caracterizar abuso sexual. Dessa forma, o material deve ser armazenado em condições adequadas para eventuais estudos forenses, o relato da observação de espermatozoides no laudo do exame é compulsório e sempre deve ser acompanhado de uma comunicação ao Conselho Tutelar ou à Vara da Infância e Juventude ou o Ministério Público {em respeito à Lei nº 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e ao Decreto-Lei nº 2.848/40 (Código Penal), sob risco de infração criminal. 

Considerações finais 

Ocasionalmente, no dia a dia do Laboratório Clínico, encontramos espermatozoides no exame de urina de rotina, na sua maioria em urinas de pacientes do sexo masculino. Em meninos e homens, esse achado deve ser reportado no laudo, cuja interpretação e determinação da relevância clínica fica a critério do médico solicitante. 

Todavia, a observação de espermatozoides na urina de mulheres deve ser criteriosamente avaliada, devido à eventuais implicações clínicas, éticas e legais. Em mulheres acima de 14 anos, é desaconselhável se relatar esse achado no laudo do exame (exceto sob demanda judicial), devido à falta de relevância clínica. 

Já em crianças e adolescentes menores de 14 anos, a detecção de espermatozoides na urina pode configurar um caso de abuso sexual e, dessa maneira, é obrigatória a sua descrição no laudo (sob pena de omissão e negligência), bem como a notificação ao Conselho Tutelar ou à Vara da Infância e Juventude ou o Ministério Público (caso contrário, o médico ou responsável pelo estabelecimento de saúde estará sujeito a infração administrativa passível de multa). 

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