Um problema de saúde pública subestimado
A deficiência de vitamina B₁₂ (cobalamina) é reconhecida como causa de complicações hematológicas, neurológicas e cardiovasculares. Esse é um problema de saúde ainda subestimado e pouco documentado no Brasil.1 Um novo estudo brasileiro de evidências do mundo real (RWE, do inglês real-world evidence), publicado na revista Frontiers in Nutrition, traz dados inéditos e alarmantes sobre a prevalência e o impacto clínico dessa deficiência em escala populacional.
Liderado pelo Dr. Leonardo Carvalho, professor colaborador da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Medicina de Precisão do Hospital Israelita Albert Einstein, o estudo analisou 84 milhões de exames de vitamina B₁₂ realizados entre 2016 e 2023 nos sistemas público e privado de saúde do Brasil.2 Os resultados revelam um aumento de 32% nas hospitalizações associadas à deficiência dessa vitamina, o que evidencia a necessidade de ações preventivas e terapêuticas mais eficazes.
Metodologia do estudo: a força dos dados do mundo real
Estudos de RWE utilizam dados coletados de forma não controlada em ambientes clínicos reais, o que permite análises mais próximas da prática médica cotidiana.
Características do estudo:2
- 82,8 milhões de exames de vitamina B₁₂ analisados (2016 a 2023).
- 35 milhões de exames do sistema público de saúde.
- 47,8 milhões de exames do sistema privado de saúde.
- Ajustes estatísticos por Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) regional e Índice de Gini.
- Análise de correlações com outras deficiências vitamínicas (B₁, B₆) e hospitalizações por doenças específicas.
Segundo o Dr. Leonardo Carvalho: “Quando capturamos 82,8 milhões de exames, chegamos mais próximo da verdade, pois trabalhamos com números gigantes em nível populacional. Essa é a nossa realidade”.
Principais achados: números que exigem atenção
1. Crescimento exponencial na solicitação de exames
O número de exames de vitamina B₁₂ solicitados aumentou 12 vezes entre 2016 e 2023, atingindo quase 25 milhões em 2023.2 Esse crescimento, provavelmente, resulta de uma maior conscientização sobre a relevância da deficiência dessa vitamina, mas também pode sugerir um aumento no total de casos ou maior investigação diagnóstica.
Houve uma mudança significativa no padrão de solicitação, com aumento expressivo no setor privado de saúde, indicando que o tema também ganhou atenção fora do contexto de doenças já estabelecidas.2
2. Alta prevalência de resultados anormais
De 11 a 12% dos exames apresentaram resultados anormais, tanto no sistema público quanto no privado.2 Isso significa que 1 em cada 10 exames solicitados identifica deficiência de vitamina B₁₂, o que sinaliza falhas na prevenção e detecção precoce.
3. Disparidade de gênero alarmante
As mulheres representam 80% dos casos de deficiência de B₁₂ diagnosticados.2 A relação de testes anormais entre mulheres e homens é de 4 para 1, evidenciando a necessidade de maior conscientização nesse grupo populacional.
Fatores contribuintes para a deficiência de B₁₂ em mulheres:2,3,5,6
- Menstruação (perda crônica de sangue)
- Gravidez e amamentação (aumento da demanda)
- Maior uso de inibidores de bomba de prótons (IBP) e anticoncepcionais orais
- Maior frequência de cirurgias bariátricas
- Vegetarianismo e veganismo (mais prevalentes entre mulheres)
4. Aumento de 32% nas hospitalizações associadas
Entre 2016 e 2023, as hospitalizações associadas à deficiência de vitamina B₁₂ aumentaram 32% (p<0,05).2 Esse dado, ano a ano ajustado por índices socioeconômicos regionais, sugere que essa deficiência tem contribuído para maior morbidade hospitalar.
5. Correlação com doenças graves
O estudo identificou correlação estatística significativa entre deficiência de B₁₂ e hospitalizações por:2
- Doenças cardiovasculares: acidente vascular cerebral e infarto agudo do miocárdio.
- Doenças hematológicas: anemia megaloblástica e pancitopenia.
- Doenças neurológicas: demência, neuropatia periférica, degeneração combinada subaguda da medula.
- Doenças psiquiátricas: depressão, transtornos cognitivos.
- Doenças gastrointestinais: má absorção, atrofia gástrica.
Além disso, a deficiência de B₁₂ se correlacionou com deficiências de outras vitaminas do complexo B (B₁ e B₆), sugerindo um padrão de carência nutricional múltipla.2
Nota metodológica importante: por se tratar de um estudo observacional retrospectivo, populacional, baseado em dados administrativos de mundo real, os achados apresentados refletem correlações estatísticas sujeitas a viés ecológico, e não relações de causalidade. Não é possível comprovar causalidade em estudos populacionais por limitações inerentes à metodologia da pesquisa. As associações identificadas devem ser interpretadas com cautela e como geradoras de hipóteses.
Mecanismos fisiopatológicos: por que a B₁₂ é essencial?
A vitamina B₁₂ desempenha funções essenciais no organismo:
Síntese de DNA e divisão celular
Cofator essencial para a síntese de timidina, necessária para a replicação do DNA. Sua deficiência leva à produção de eritrócitos macrocíticos (anemia megaloblástica).1,4
Metabolismo da homocisteína
A B₁₂ é cofator da metionina sintase, enzima que converte homocisteína em metionina. A deficiência de B₁₂ promove a elevação dos níveis de homocisteína, fator de risco independente para doenças cardiovasculares e tromboembolismo.3,7
Manutenção da bainha de mielina
A B₁₂ participa da síntese de mielina, a camada protetora dos nervos. Sua deficiência pode causar desmielinização progressiva, resultando em neuropatia periférica, parestesias, ataxia e degeneração combinada subaguda da medula espinhal.4,8
Função cognitiva e saúde mental
A deficiência de B₁₂ está associada a declínio cognitivo, demência, depressão e alterações psiquiátricas, possivelmente mediadas por hiper-homocisteinemia e alterações na síntese de neurotransmissores.1,4,8
Implicações para a prática clínica
Quem deve ser rastreado?
Com base nas evidências desse estudo de RWE, recomenda-se rastreamento em:1,2,5
- Mulheres entre 40 e 50 anos (faixa de maior prevalência).
- Idosos (absorção reduzida pela atrofia gástrica).
- Usuários crônicos de metformina, inibidores da bomba de prótons, antagonistas dos receptores H₂.
- Vegetarianos e veganos.
- Pacientes com história de cirurgia bariátrica ou gastrectomia.
- Pessoas com anemia megaloblástica, neuropatia periférica de causa desconhecida, demência precoce.
- Pacientes com doença inflamatória intestinal ou outras síndromes de má absorção.
Diagnóstico
Dosagem sérica de vitamina B₁₂:1,5,9
- Menor que 200 pg/mL: deficiência confirmada.
- De 200 a 300 pg/mL: zona cinza (considerar homocisteína e ácido metilmalônico).
- Maior que 300 pg/mL: normal.
Testes complementares:1,7,9
- Homocisteína sérica (elevada nas deficiências de B₁₂, B₆ e folato).
- Ácido metilmalônico (mais específico na deficiência de B₁₂).
- Hemograma (volume corpuscular médio aumentado, anemia macrocítica).
Tratamento
O estudo analisado não aborda protocolos de tratamento. As informações a seguir são baseadas em diretrizes clínicas gerais, apresentadas apenas como referência.
Via parenteral (casos graves):5,9,10
- Cianocobalamina ou hidroxocobalamina: 1 mg intramuscular (IM) diariamente por 7 dias, seguidos de doses semanais por 4 semanas e mensal para manutenção.
Via oral/sublingual (casos leves a moderados): 5,9,10,11
- Cianocobalamina oral: 1.000 a 2.000 mcg ao dia.
- Mecobalamina sublingual: 1.000 mcg ao dia.
Conclusão: um chamado à ação
Esse estudo de RWE representa um marco para a compreensão da magnitude da deficiência de vitamina B₁₂ no Brasil.² Os dados revelam se tratar de um problema de saúde pública subestimado, com possível impacto crescente em hospitalizações e forte correlação com o surgimento de doenças graves.
Como ressaltou o Dr. Leonardo Carvalho: “Esperamos que haja uma redução do impacto da desvitaminose no Brasil a partir da informação, fundamental para que a gente consiga preveni-la e tratá-la de forma precoce e em nosso país”.
Medidas necessárias:2
- Ampliar o rastreamento em populações de risco.
- Educação médica continuada sobre a importância clínica da deficiência de B₁₂.
- Implementar protocolos de suplementação preventiva em grupos vulneráveis.
- Monitorar pacientes em uso crônico de medicamentos que interferem na absorção de B₁₂.
- Fortalecer políticas públicas de fortificação alimentar.
O estudo completo Vitamin B12 deficiency and its impact on healthcare: a population-level analysis and call for action está disponível gratuitamente na Frontiers in Nutrition. Leitura altamente recomendada para médicos, nutricionistas e gestores de saúde pública.
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BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 96, de 17 de dezembro de 2008. Dispõe sobre a propaganda, publicidade, informação e outras práticas cujo objetivo seja a divulgação ou promoção comercial de medicamentos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 dez. 2008. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2008/rdc0096_17_12_2008.html
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Data de veiculação: maio de 2026
Autoria
Marjan Farma
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