Logotipo Afya
Anúncio
Clínica Médica30 janeiro 2026

Choque cardiogênico: estadiamento SCAI

Por Leandro Lima

O choque cardiogênico é uma síndrome heterogênea, multifatorial e dinâmica, que não comporta definições binárias (choque vs. não choque). Dessa forma, a Society for Cardiovascular Angiography and Interventions (SCAI) propôs, em 2019, um sistema de estadiamento que reconhece o continuum da gravidade do choque cardiogênico. 

Diferentemente de escores estáticos, o sistema SCAI foi concebido para ser aplicado de forma seriada, de modo que a trajetória do paciente, e não necessariamente o estadiamento em si, é que determina o prognóstico. A sua utilização é endossada pelo American College of Cardiology American Heart Association. 

Estadiamento SCAI: ABCDE 

Adaptado de NEJM, 2026. PAS: pressão arterial sistólica; PAM: pressão arterial média. 

A) At risk (em risco): inclui pacientes hemodinamicamente estáveis, mas com condições estruturais ou clínicas que os tornam vulneráveis ao choque, como infarto extenso ou insuficiência cardíaca agudizada. A perfusão está preservada, o lactato arterial é normal (< 2 mmol/L) e o paciente encontra-se com a sua hemodinâmica basal. A recomendação é vigilância ativa e prevenção da progressão.  

B) Beginning (choque inicial ou pré-choque): caracteriza-se por instabilidade hemodinâmica (hipotensão relativa e taquicardia), mas sem hipoperfusão sistêmica (paciente ainda está quente). 

C) Clássico: trata-se do choque cardiogênico estabelecido, marcado hipoperfusão sistêmica (o paciente tornou-se frio), sem a obrigatoriedade de hipotensão arterial concomitante: 

  • Lactato ≥ 2 mmol/L; 
  • Janelas de perfusão alteradas: oligúria, alteração do sensório ou extremidades frias/pegajosas, com tempo de enchimento capilar aumentado; 
  • Índice cardíaco < 2,2 L/min/m²;  
  • Pressão de oclusão da artéria pulmonar > 15 mmHg; 
  • Demanda por intervenção ativa (aminas vasoativas ou suporte mecânico). 

D)Deterioração: estágio definido pela falha da terapia inicial, quando a transferência para centros de referência deve ser considerada. O paciente não melhora (ou piora) apesar de intervenções adequadas: 

  • Lactato em ascensão ou estagnado; 
  • Necessidade de escalonamento de doses ou adição de novas terapias; 
  • Introdução ou intensificação de suporte circulatório mecânico. 

E) Extremo: representa colapso circulatório iminente ou em curso: 

  • PAS < 60 mmHg ou PAM < 50 mmHg;  
  • Lactato geralmente ≥ 8 mmol/L; 
  • Acidose grave (pH < 7,2); 
  • Hipotensão refratária apesar de suporte máximo (farmacológico/mecânico); 
  • Parada cardiorrespiratória (PCR) em curso ou iminente.  

O modificador “A” (Cardiac Arrest):  

Episódios breves, rapidamente revertidos e sem repercussão neurológica de PCR não alteram o estadiamento. Entretanto, a suspeita de lesão anóxica cerebral é um fator prognóstico independente que é suspeita na presença de coma (Glasgow < 9) ou incapacidade de obedecer a comandos. 

Mensagens finais 

  • A classificação SCAI é uma tratativa de linguagem comum para descrever, de modo real, prático e dinâmico, a gravidade do choque cardiogênico, com o objetivo de melhorar a comunicação, reconhecer precocemente trajetórias desfavoráveis e permitir a tomada de decisões pertinentes em tempo adequado.  

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Graduação em Medicina em 2013 pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019).

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Cardiologia