O choque cardiogênico é uma síndrome heterogênea, multifatorial e dinâmica, que não comporta definições binárias (choque vs. não choque). Dessa forma, a Society for Cardiovascular Angiography and Interventions (SCAI) propôs, em 2019, um sistema de estadiamento que reconhece o continuum da gravidade do choque cardiogênico.
Diferentemente de escores estáticos, o sistema SCAI foi concebido para ser aplicado de forma seriada, de modo que a trajetória do paciente, e não necessariamente o estadiamento em si, é que determina o prognóstico. A sua utilização é endossada pelo American College of Cardiology e American Heart Association.
Estadiamento SCAI: ABCDE

Adaptado de NEJM, 2026. PAS: pressão arterial sistólica; PAM: pressão arterial média.
A) At risk (em risco): inclui pacientes hemodinamicamente estáveis, mas com condições estruturais ou clínicas que os tornam vulneráveis ao choque, como infarto extenso ou insuficiência cardíaca agudizada. A perfusão está preservada, o lactato arterial é normal (< 2 mmol/L) e o paciente encontra-se com a sua hemodinâmica basal. A recomendação é vigilância ativa e prevenção da progressão.
B) Beginning (choque inicial ou pré-choque): caracteriza-se por instabilidade hemodinâmica (hipotensão relativa e taquicardia), mas sem hipoperfusão sistêmica (paciente ainda está quente).
C) Clássico: trata-se do choque cardiogênico estabelecido, marcado hipoperfusão sistêmica (o paciente tornou-se frio), sem a obrigatoriedade de hipotensão arterial concomitante:
- Lactato ≥ 2 mmol/L;
- Janelas de perfusão alteradas: oligúria, alteração do sensório ou extremidades frias/pegajosas, com tempo de enchimento capilar aumentado;
- Índice cardíaco < 2,2 L/min/m²;
- Pressão de oclusão da artéria pulmonar > 15 mmHg;
- Demanda por intervenção ativa (aminas vasoativas ou suporte mecânico).
D)Deterioração: estágio definido pela falha da terapia inicial, quando a transferência para centros de referência deve ser considerada. O paciente não melhora (ou piora) apesar de intervenções adequadas:
- Lactato em ascensão ou estagnado;
- Necessidade de escalonamento de doses ou adição de novas terapias;
- Introdução ou intensificação de suporte circulatório mecânico.
E) Extremo: representa colapso circulatório iminente ou em curso:
- PAS < 60 mmHg ou PAM < 50 mmHg;
- Lactato geralmente ≥ 8 mmol/L;
- Acidose grave (pH < 7,2);
- Hipotensão refratária apesar de suporte máximo (farmacológico/mecânico);
- Parada cardiorrespiratória (PCR) em curso ou iminente.
O modificador “A” (Cardiac Arrest):
Episódios breves, rapidamente revertidos e sem repercussão neurológica de PCR não alteram o estadiamento. Entretanto, a suspeita de lesão anóxica cerebral é um fator prognóstico independente que é suspeita na presença de coma (Glasgow < 9) ou incapacidade de obedecer a comandos.
Mensagens finais
- A classificação SCAI é uma tratativa de linguagem comum para descrever, de modo real, prático e dinâmico, a gravidade do choque cardiogênico, com o objetivo de melhorar a comunicação, reconhecer precocemente trajetórias desfavoráveis e permitir a tomada de decisões pertinentes em tempo adequado.
Autoria

Leandro Lima
Graduação em Medicina em 2013 pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019).
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