A presença da tosse pode ser um sintoma indicativo de um agravo, tanto de destino pulmonar quanto não pulmonar. Dois critérios principais são usados para classificá-la: a presença de escarro e a duração:1
- Tosse produtiva é aquela com expectoração de escarro, já a tosse seca, acontece quando não há expectoração de escarro.
- Tosse aguda, aquela que tem duração inferior a 3 semanas, ou tosse crônica, aquela que tem duração superior a 3 semanas.
Quando se observa os padrões de tosse, podemos inferir sua etiologia:1
- Tosse aguda seca: infecção viral, alérgeno, inalação de partícula estranha, inalação de gases ou pós irritantes, pneumotórax espontâneo parcial ou embolia pulmonar leve.
- Tosse aguda produtiva: infecção bacteriana, DPOC, asma brônquica, edema pulmonar, embolia da artéria
- Tosse crônica seca: inalação de poluentes e partículas estranhas, asma, rinite, síndrome do gotejamento pós-nasal, refluxo gastroesofágico, tosse após infecção, carcinoma pulmonar ou metástases.
- Tosse crônica produtiva: bronquite crônica, DPOC, bronquiectasia, fibrose cística, tuberculose, micose pulmonar.
As infecções virais das vias aéreas superiores (IVAS) são as principais causas de tosse, que pode durar 10 dias, podendo prolongar-se até 25 dias ou mais.2 São a doença mais comum que afeta os pacientes em todos os cenários de saúde. Enquanto a população adulta desenvolve 2 a 5 episódios ao longo do ano, as crianças em idade escolar desenvolvem de 7 a 10 episódios.2
As IVAS são mais comuns em crianças do que em adultos por uma combinação de fatores anatômicos, imunológicos e comportamentais.
O sistema imunológico infantil ainda está em desenvolvimento, não possui a mesma memória imunológica que o de adultos, pois ainda não foi exposto a muitos patógenos. O que torna as crianças mais vulneráveis a infecções virais e bacterianas. Nos adultos, a exposição prévia pode conferir imunidade.
Outro ponto que tornam as infecções virais tão comuns em crianças são as vias respiratórias infantis serem menores e mais estreitas, facilitando o bloqueio por muco ou inflamação. O que aumenta a suscetibilidade a complicações, como obstruções ou infecções secundárias.
Da perspectiva comportamental, as crianças, na escola ou creche, são frequentemente expostas a outros indivíduos, facilitando o contato com novos vírus e bactérias. E, para complementar, a higiene nem sempre é adequada, porque as crianças tendem a colocar objetos e as mãos na boca, no nariz e nos olhos, promovendo a entrada de microrganismos no corpo, e contribuindo para a propagação de infecções.11
Estão envolvidos principalmente rinovírus, coronavírus, parainfluenza, vírus respiratório sincicial, adenovírus e enterovírus.3
Fisiopatologia da tosse
O sistema respiratório é ricamente inervado. Neurônios colinérgicos regulam o tônus das vias aéreas, a secreção de muco e a vasodilatação por meio de receptores muscarínicos, e os neurônios sensoriais detectam os estímulos nocivos. Os receptores detectam estímulos irritantes e há ativação dos nervos sensoriais. Ocorre despolarização da membrana plasmática, o potencial de ação é conduzido pelos nervos aferentes vagais e sinapses do bulbo, onde a resposta reflexa é desencadeada. Neurônios respiratórios medulares enviam um sinal através dos nervos motores para a laringe, músculos respiratórios e diafragma, o que resulta na tosse.1
Propriedades viscoelásticas e densidade do muco podem interferir na capacidade de mobilizá-lo pela tosse.4
Critérios de alerta de tosse para consulta médica:
Apesar da tosse ser um sintoma comum, se faz necessária a observação de critérios que possam indicar gravidade do quadro, sendo iminente a avaliação clínica:
- Quadro que se prolonga por mais de 4 semanas.
- Em recém-nascidos e lactentes menores de 6 meses.
- Após engasgos, acompanhada de cianose.
- Com catarro por mais de 4 semanas.
- Tosse seca, e principalmente à noite.
- Quando associada a outros sintomas como perda de peso, febre e falta de ar.3
Diagnóstico
Uma história clínica cuidadosa, anamnese e exame físico permitem diagnóstico clínico na maioria das vezes na investigação da tosse e do quadro respiratório. Os exames complementares são indicados em caso de dúvida diagnóstica, diagnóstico diferencial ou intervenção; como necessidade de aspiração de secreção, retirada de corpo estranho, necessidade de aspirados para análise laboratorial.2
Exames complementares
São exemplos de exames complementares comumente utilizados:2
- Endoscopia nasal, queixa nasossinusal (biópsia e aspiração).
- Radiografia simples de seios paranasais, pode ser utilizada, presença de nível hidroaéreo ou velamento total do seio. Observar se desenvolvimento do seio paranasal é compatível com a idade e não o utilizar como parâmetro de melhora ou cura.
- Radiografia de cavum e nasofibroscopia – adenoides e a permeabilidade aérea da rinofaringe.
- Radiografia de tórax: Infiltrado intersticial localizado ou difuso ou área de condensação.
Tratamento
Os medicamentos, quando utilizados, são dirigidos para a doença de base. Antivirais no caso de vírus influenza, antibioticoterapia em caso de rinossinusite bacteriana, otite, faringoamigdalite, laringite e pneumonia.
O tratamento para alívio da tosse inclui: medidas de suporte, hidratação oral, repouso e sintomáticos – analgésicos e antitérmicos.
É necessário o diagnóstico correto do tipo de tosse para definir a melhor terapia medicamentosa. Os expectorantes são usados para a terapia da tosse produtiva, facilitam a tosse. Já os antitussígenos suprimem a tosse seca.1
Os expectorantes, agem de 3 maneiras principais:1
- Secretolíticos: irritam a mucosa, estimulam glândulas submucosas a secretar muco aquoso, facilitando a expectoração.
- Secretomotores: ativam os cílios e aumentam a eficiência da depuração mucociliar.
- Mucolíticos: quebram ligações das proteínas que compõem o muco, tornando-o mais fluido e fácil de ser eliminado.
E de que forma os fitoterápicos podem ajudar?
Estudos relacionados aos fitoterápicos vêm crescendo de forma significativa e seus mecanismos de ação têm sido estudados.
O epitélio brônquico é formado por células ciliadas e intercalado com células secretoras de muco, que é composto de água, glicoproteínas, glicosaminoglicanos, proteínas e peptídeos, lipídios, antiproteases, antioxidantes e íons. As glicoproteínas de mucina são ligadas por pontes dissulfeto e tornam o muco viscoso. Em condições patológicas, mais muco com maior viscosidade é produzido.1
Após a administração de saponinas Hedera (α- ou β-hederina, respectivamente) ou Glycyrrhiza spp. (glicirrizina) foi observado aumento da secreção de muco aquoso pelas células brônquicas (efeito secretolítico).1
Efeito β adrenérgico
Os receptores adrenérgicos β2 são alvo conhecido dos simpaticomiméticos broncodilatadores, como o salbutamol.
A revisão de ensaios clínicos randomizado teve como objetivo investigar se extratos de folhas secas de hera (Hedera helix L.) são eficazes no tratamento da obstrução crônica das vias aéreas em crianças com asma brônquica.
Os resultados dos cinco ensaios clínicos foram significativamente superiores para a Hedera helix em relação ao placebo, na redução da resistência das vias aéreas, proporcionando melhoria das funções respiratórias de crianças com asma brônquica crónica. É importante continuar realizando mais pesquisas, especialmente sobre a eficácia a longo prazo do extrato de ervas.12, 13
Efeitos anti-inflamatórios
O epitélio das vias aéreas além de barreira e produtor de mucinas, possui propriedades sensoriais e células imunes e neurais.
Receptores reconhecem substâncias nocivas microbianas e se inicia a resposta imune. Receptores de citocinas detectam sinais das células imunes e mediam uma conversa cruzada entre células epiteliais, macrófagos alveolares, células dendríticas e células T de memória.1
Na forma de extrato ou sua fração, foram demonstrados no modelo ALI,9 que Hedera helix possui efeitos anti-inflamatórios para seu principal componente, hederacosídeo C.
O Hederacosídeo C diminui a expressão dos receptores TLR2 e TLR4 in vitro elevados pela infecção por Staphylococcus aureus. Como esses receptores reconhecem os estímulos nocivos microbianos, sua regulação negativa pode modificar a extensão da resposta imune.10
A supressão in vivo da produção de citocinas pró-inflamatórias foi demonstrada para o extrato de Hedera helix .A administração do extrato etanólico da folha de Hedera helix e da fração rica em fenólicos diminuiu a expressão de COX-2.9
Em estudo feito com camundongos em 2022, foi evidenciado que as folhas de hera podem proteger significativamente de lesões pulmonares induzidas, onde a fração rica em fenólicos é responsável pela atividade, não as saponinas. A hera possuía maior atividade inibitória em comparação com o celecoxib e ao aurotiomalato de sódio padrão. Simultaneamente, a planta mostrou uma forte atividade antioxidante em comparação com Trolox.
Esses efeitos promissores levaram a necessidade de investiga se as folhas de hera podem atuar como potentes anti-inflamatórios e antioxidantes in vivo. Os resultados indicaram que as folhas inibiram significativamente a produção de citocinas inflamatórias induzidas por LPS, além da redução de biomarcadores de estresse oxidativo. E os indivíduos tratados exibiram uma redução significativa de citocinas pró-inflamatórias e aumentaram os níveis de citocina protetora. Vale destacar que as folhas de hera mostraram atividade anti-inflamatória potente que foi melhor do que a administração oral de dexametasona.
Todos esses usos estão relacionados à alta quantidade de diferentes tipos de substâncias biológicas que podem ser a principal causa desses efeitos farmacológicos, incluindo saponinas triterpênicas, flavonoides, cumarinas, poliacetilenos, antocianinas, esteróis, alcaloides, aminoácidos, vitaminas, carboidratos e óleos voláteis.9
Efeitos antibacterianos
Alguma atividade antimicrobiana foi encontrada para a fração rica em fenólicos de Hedera helix; os valores de MIC contra Klebsiella pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae e Streptococcus pneumoniae. Esses valores foram comparáveis aos da ciprofloxacina no mesmo experimento.9
O estudo de Kruttschnitt relata que o extrato de Hederae folium poderia servir como uma alternativa à acetilcisteína na melhora da função respiratória em crianças e adultos. Ambos os grupos, o alívio dos sintomas foi registrado após 7 dias. Houve melhora mais pronunciada no número de ataques de tosse e distúrbios do sono relacionados à tosse nos participantes que tomaram o xarope de Hedera.7
Conclusão
Tendo em vista estudos relacionados aos mecanismos de ação dos fitoterápicos e seus benefícios, são opções que podem auxiliar como mucolíticos, secretolíticos.
Alguns apresentam ainda ação antibacteriana e anti-inflamatória associada, podendo apoiar na odinofagia e nos quadros de bronquite.
A escolha do fitoterápico deve levar em conta a quantidade de estudos mais robustos demostrando seus mecanismos de ação e maior quantidade de benefícios associados (efeitos mucolíticos, secretolíticos, ação antibacteriana e anti-inflamatória associada), além da eficácia e segurança.
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