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Cirurgia22 setembro 2026

SBCO orienta traqueostomia de urgência no câncer de cabeça e pescoço

A traqueostomia de urgência exige integração de achados clínicos, endoscópicos e contextuais para reduzir riscos e preservar o plano oncológico
Por Manuela Paiva

A traqueostomia de urgência exige integração de achados clínicos, endoscópicos e contextuais para reduzir riscos e preservar o plano oncológico. 

A nova diretriz prática da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) apresenta recomendações para a indicação e o planejamento da traqueostomia de urgência e emergência em pacientes com câncer de cabeça e pescoço. 

A traqueostomia de urgência no câncer de cabeça e pescoço pode ser necessária quando a progressão tumoral, o edema relacionado ao tratamento ou as alterações anatômicas locais comprometem a permeabilidade da via aérea. Nesses pacientes, a obstrução respiratória pode evoluir de forma aguda e potencialmente fatal, enquanto a cricotireoidostomia nem sempre é aplicável pelas limitações impostas pela própria doença. 

Embora a traqueostomia seja o procedimento cirúrgico de escolha para estabelecer ventilação definitiva em situações de alto risco, as orientações tradicionais para manejo da via aérea são mais bem definidas em cenários não oncológicos. No contexto brasileiro, essa lacuna ganha relevância porque parte dos pacientes chega ao atendimento com doença avançada e pode demandar intervenção de urgência. 

A realização do procedimento sem planejamento prévio pode aumentar as complicações perioperatórias e comprometer a possibilidade de alinhar o acesso cirúrgico à estratégia oncológica. Por isso, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) publicou um guia prático com critérios para indicação da traqueostomia de urgência e emergência, buscando ampliar a segurança do paciente, reduzir a morbimortalidade e preservar opções terapêuticas. 

SBCO estrutura recomendações para câncer de cabeça e pescoço 

O documento foi elaborado pela Comissão de Neoplasias de Cabeça e Pescoço da SBCO a partir de revisão crítica e sistemática da literatura nas bases MEDLINE e SCIELO. Foram priorizados estudos com níveis de evidência alto e moderado, além de consensos e diretrizes internacionais consolidadas, com adaptação à realidade do sistema de saúde brasileiro. 

A construção das recomendações seguiu a metodologia GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation), que classifica a força das recomendações em forte ou fraca e a qualidade das evidências em alta, moderada, baixa ou muito baixa. O guia organiza a tomada de decisão pela associação de fatores clínicos, endoscópicos e contextuais, evitando depender de um único marcador de risco. 

Saiba mais: Cricotireoidostomia, traqueostomia de emergência em patologias de cabeça e pescoço 

 

Quando a obstrução de via aérea exige traqueostomia? 

A traqueostomia imediata é fortemente recomendada quando há sinais maiores de ameaça à via aérea. Entre eles estão estridor inspiratório em repouso, dispneia progressiva com uso de musculatura acessória, ortopneia, dessaturação, rebaixamento do nível de consciência por hipóxia e sangramento tumoral com risco de aspiração. 

Sinais menores, como disfonia progressiva, disfagia com sialorreia, engasgos frequentes, trismo ou abertura oral reduzida e dispneia aos esforços, também merecem atenção. Nesses casos, considera-se a traqueostomia quando há progressão dos sintomas, antes da instalação de colapso respiratório. 

Integre a nasofibrolaringoscopia à avaliação clínica 

Na avaliação endoscópica, sugere-se traqueostomia quando a nasofibrolaringoscopia demonstra comprometimento estrutural grave da via aérea, principalmente se associado a fatores clínicos ou contextuais. Os achados de maior risco incluem estreitamento luminal acentuado, edema pós-radioterapia, fixação de pregas vocais, massas móveis com risco de colapso inspiratório e tumores friáveis com sangramento recorrente. 

Os critérios contextuais também receberam recomendação forte quando indicam risco de falha súbita da via aérea. Entre eles estão rápida progressão dos sintomas, intubação orotraqueal previsivelmente difícil, necessidade iminente de cirurgia de grande porte, edema persistente após radioterapia e indisponibilidade de equipe ou recursos avançados em momentos de crise. 

Recomenda-se integrar critérios clínicos, endoscópicos e contextuais, sem se prender ao uso isolado de escores de risco. Essa avaliação conjunta busca antecipar a deterioração respiratória e permitir uma estratégia de acesso à via aérea compatível com o tratamento oncológico planejado. 

Saiba mais: Diretrizes espanholas para manejo de via aérea difícil 

 

Via aérea difícil requer estratégias específicas 

Nos pacientes com alto risco de obstrução aguda ou via aérea difícil, recomenda-se realizar a traqueostomia com o paciente acordado e sob anestesia local. Esse cenário inclui obstrução anatômica progressiva, sangramento tumoral ou distorção cervical. Tentativas sucessivas de intubação orotraqueal devem ser evitadas. 

Em pacientes com carcinoma anaplásico de tireoide e grandes massas cervicais com desvio traqueal, recomenda-se inicialmente a intubação endoscópica acordada, desde que realizada por equipe experiente. A traqueostomia profilática de rotina não é recomendada, e deve-se evitar o acesso cirúrgico cego ou sem parâmetros anatômicos. 

Saiba mais: Câncer de Cabeça e Pescoço — o que especialista e o não especialista precisam saber 

 

Se houver tumores de laringe, planeje o estoma traqueal 

Nos tumores de laringe, o nível do estoma traqueal deve ser planejado de acordo com o tratamento oncológico definitivo. Quando há proposta de cirurgia conservadora da laringe, recomenda-se traqueostomia baixa, entre os anéis inferiores, para reduzir a interferência em futuros procedimentos de preservação laríngea. 

Na prática, a principal mudança de abordagem proposta pelo documento é substituir uma atuação exclusivamente reativa por avaliação antecipada do risco de falência da via aérea. Para o médico que atende esses pacientes no plantão, na enfermaria ou no perioperatório, a presença de sinais clínicos progressivos, alterações endoscópicas relevantes e fatores contextuais deve orientar decisão precoce e multidimensional. 

A traqueostomia de urgência no câncer de cabeça e pescoço continua sendo uma intervenção potencialmente salvadora, mas seu benefício depende de indicação oportuna e planejamento técnico. Reconhecer a evolução para obstrução respiratória, evitar tentativas repetidas de intubação e considerar o plano oncológico definitivo são pontos centrais para reduzir complicações e preservar possibilidades terapêuticas. 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos. 

Autoria

Foto de Manuela Paiva

Manuela Paiva

Editora de Planejamento Whitebook

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