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Cirurgia11 dezembro 2024

Até onde vamos com as siglas nas cirurgias de hérnias?

Por Felipe Victer

Na medicina não é infrequente o uso de abreviações e epônimos para sumarizar alguma síndrome e/ou procedimento. Talvez regidos pela lei do menor, exageramos no uso, e pior, algumas abreviações são restritas a uma instituição sendo complicado um entendimento global.   

A cirurgia é um ramo da medicina e, portanto, não poderia ser diferente do que se observa nas diferentes áreas. Alguns termos cirúrgicos já estão amplamente difundidos e seu uso se tornou natural. Já na área do tratamento das hérnias da parede abdominal até mesmo os especialistas são pegos de surpresa, com novas siglas para descreverem algum procedimento descrito.   

Está quase se tornando imperativo a necessidade de um glossário para que todos possam entender o procedimento proposto e até julgar os benefícios inerentes de cada técnica envolvida. Nenhuma técnica é perfeita e muito menos isenta de complicações. Existem conceitos de posicionamento de tela geralmente em relação à aponeurose muscular e aos nomes das técnicas, onde realmente ocorre a verdadeira sopa de letrinhas. 

 

Onlay  

O posicionamento da tela é colocado sobre a superfície aponeurose. Técnica clássica, e possivelmente uma das mais utilizadas. 

 

Underlay  

O posicionamento da tela é mais profundo em relação à aponeurose podendo ser dentro da cavidade ou não. 

 

Inlay  

A tela é implantada no nível da aponeurose. Técnica considerada de exceção, pois a tela irá substituir uma área de aponeurose não aproximada. Também pode ser chamada de tela em “ponte”. 

 

Retro Rectus (Retro muscular)  

Existe o contato direto da tela com o ventre dos músculos retos abdominais. A tela é posicionada acima da bainha posterior do músculo reto abdominal e abaixo das fibras musculares.  

 

Quanto às técnicas utilizadas podemos destacar as seguintes: 

TAPP (Trans Abdominal Pré-Peritoneal)  

Utilizada no tratamento das hérnias inguinais por videolaparoscopia, onde é realizado o acesso à cavidade peritoneal e confecção de pneumoperitônio. Após a exposição da região pélvica, é realizada uma incisão no peritônio parietal anterior e a criação de um “flap” peritoneal que irá se estender até além do trato iliopúbico. É nesse espaço que irá se implantar a tela, que ficará posicionada no espaço pré-peritoneal criado com a dissecção. Ao final do procedimento, o peritônio é fechado para impedir o contato das alças intestinais com a tela. 

 

TEP (Totalmente Extra Peritoneal)   

Este é um dos casos em que a sigla pode ser confundida com outra sigla utilizada no português, visto que TEP pode ser facilmente confundida com Trombo Embolismo Pulmonar, apesar do contexto de utilização ser totalmente distinto.   

Quanto à técnica cirúrgica, na modalidade TEP, não é realizado o acesso à cavidade peritoneal. O cirurgião irá criar o espaço pré-peritoneal, seja com balão expansor ou até mesmo com o dedo até conseguir insuflar CO2 no espaço pré-peritoneal. Feito isso, irá realizar a dissecção de toda a região inguinal e implantar a tela. Interessante notar que tanto a TAPP quanto a TEP irão implantar a tela no mesmo espaço, porém as técnicas de realização desses acessos são totalmente distintas. 

 

Ventral TAPP   

Uma variante da técnica TAPP consagrada para o tratamento das hérnias inguinais, porém utilizada para o tratamento das hérnias da parede anterior. É confeccionada um flap peritoneal posicionado à tela de forma pré-peritoneal. Assim como na TAPP para o tratamento das hérnias inguinais, é importante o fechamento do flap peritoneal. 

 

TARUP (Trans abdominal retro muscular umbilical prótesis)  

Esta técnica é utilizada para o tratamento das hérnias da linha média de forma laparoscópica. Pode ser utilizada quando há uma dificuldade técnica durante uma Ventral-TAPP ou até como técnica primária. Semelhante ao TAPP é realizado um acesso à cavidade peritoneal e a bainha posterior do reto abdominal é incisada e os ventres musculares são expostos. A tela é posicionada em contato direto com o músculo. Após a correção do defeito, a bainha posterior do músculo reto abdominal é suturada.  

 

e-TEP (extended – Totalmente Extra Peritoneal)  

Utilizada para tratamento de hérnias ventrais de maiores diâmetros podendo inclusive tratar hérnias inguinais. Como o próprio nome sugere, é uma ampliação do conceito de TEP, ficando totalmente extra-peritoneal. A dissecção é realizada em praticamente toda a bainha posterior dos músculos reto abdominal estendendo pela fáscia transversalis até a região inguinal. Muito utilizada com auxílio da plataforma robótica.  

 

TAR (Transversus Abdominis Release)   

Epônimo em inglês para a liberação do músculo transverso abdominal. Na verdade, não é uma técnica isolada, porém um procedimento realizado durante a liberação posterior de componentes. A liberação de componentes musculares são manobras utilizadas para se conseguir um avanço da musculatura lateral em direção à linha média. Isso é utilizado para facilitar ou até possibilitar o fechamento do defeito herniário. 

 

IPUM  (Intra Peritonial Underlay Mesh) 

IPUM é uma correção técnica do termo IPOM (Intra Peritoneal Onlay Mesh), o qual não designava corretamente o posicionamento da tela, visto que a tela é posicionada profundamente à aponeurose do reto. Diferente da ventral TAP, não existe a necessidade do fechamento do peritônio para encobrir a tela, visto que nessa técnica, a tela possui uma membrana antiaderente, que impede alças de aderirem à ela.   

 

Para levar para casa

O uso de siglas infelizmente é uma praticidade no dia a dia, no entanto seu exagero torna incompreensível o diálogo. Saber as principais abreviações utilizadas na sua área é importante, mas devemos lembrar que ao reportar a não especialistas, esses não estão afeitos com o uso de siglas não universalmente consagradas.  

 

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